
- 14.01
- 2026
- 16:19
- Ramylle Freitas
Acesso à Informação
Retrospectiva 2025: um ano de articulação, defesa e fortalecimento do jornalismo
A Abraji iniciou 2025 fomentando o conhecimento. Em janeiro, divulgamos os materiais do Especial Jornalismo no Brasil em 2025, realizado pelo Farol Jornalismo em parceria com a Abraji, que analisaram as tendências e os desafios para o jornalismo brasileiro ao longo do ano. No mesmo período, o Comprova lançou um canal no WhatsApp dedicado à checagem de fatos, ampliando o alcance das verificações diretamente nos aplicativos de mensagens, além de publicar novos conteúdos de educação midiática.
De maneira geral, o início do ano foi marcado por reflexões estruturais sobre o futuro do jornalismo, com destaque para a crise climática (já em clima de COP30), os impactos positivos e negativos da tecnologia especialmente sobre a Inteligência Artificial (IA), o fortalecimento do jornalismo local e comunitário e a saúde mental dos jornalistas. Para Katia Brembatti, presidente do biênio 2024-25, “2025 foi um ano bastante desafiador, mas também com muitas vitórias e muitas conquistas.”
Ainda em janeiro, a Abraji abriu a chamada pública para sugestões da programação do 20º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, reforçando o caráter participativo e diverso do principal evento da entidade.
Em fevereiro, a Abraji subscreveu e divulgou uma carta aberta contrária ao envio de um projeto de lei que propõe alterações na Lei de Acesso à Informação (LAI), alertando para os riscos de retrocessos no direito à informação pública. No mesmo período, foi realizado um webinar em parceria com o Sebrae, com orientações práticas sobre empreendedorismo no jornalismo, sustentabilidade financeira e modelos de negócio. Já os projetos Comprova e Caravana ampliaram o alcance das ações formativas: o Comprova reforçou sua frente de educação midiática com minicursos voltados à identificação da desinformação, enquanto o Projeto Caravana apoiou o jornalismo comunitário na Rocinha, reforçando o impacto direto da formação nos territórios.
No mês seguinte, o Projeto Caravana fortaleceu a comunicação popular indígena no Acre, reunindo comunicadores de diferentes povos originários em uma formação que aliou jornalismo, direitos e segurança. Ainda em março, aconteceu o lançamento da segunda edição do projeto, que abriu inscrições para novos treinamentos realizados em parceria com coletivos regionais.
Também houve o lançamento da JusIA, plataforma de Inteligência Artificial (IA) do Jusbrasil, desenvolvida com base em IA generativa e treinada na maior base de dados jurídicos do Brasil. Associados e associadas da Abraji puderam utilizar a ferramenta gratuitamente por um período experimental.
Já no campo institucional, a Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), da qual a Abraji faz parte, reuniu-se com o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, para discutir segurança, violência e assédio contra jornalistas. O mês também contou com o evento “Mulheres no Jornalismo”, organizado pelo CDJor, do qual a entidade participou, com debates sobre os desafios da cobertura dos direitos das mulheres.
Cursos, preparativos para o 20º Congresso e defesa da liberdade de imprensa
Em abril, o Comprova publicou um guia detalhado sobre os principais golpes digitais no Brasil, reforçando o papel do jornalismo na educação digital da sociedade. Também foi o mês em que a Abraji iniciou o lançamento de cursos e treinamentos gratuitos de 2025, abrindo as inscrições para o curso de cobertura jornalística da COP30.
Entre abril e junho, a agenda da Abraji foi marcada pela preparação intensa para o 20º Congresso. Logo, durante abril, começaram a ser lançadas algumas modalidades de bolsas para o Congresso, para estudantes de baixa renda, jornalistas indígenas e profissionais de regiões periféricas, ampliando o acesso ao Congresso.
Abril também foi marcado por eventos relevantes. Entre eles, ocorreu o tradicional “Esquenta” para o Congresso, que promoveu debates sobre temas como investigação jornalística, ética e os riscos da cobertura em contextos de violência. A Abraji também realizou, em parceria com a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), um encontro que reuniu especialistas para discutir mecanismos de proteção legal, estratégias de defesa e os impactos dessas práticas na liberdade de imprensa. O mês foi finalizado com a abertura das inscrições para o 20º Congresso.
No campo do jornalismo de dados, o CruzaGrafos, plataforma desenvolvida pela Abraji, lançou uma nova fase da iniciativa, com foco em mapas socioambientais. A atualização trouxe dados inéditos sobre infrações e embargos ambientais, além de um robusto sistema de visualização georreferenciada.
Maio deu continuidade a mobilização em torno do Congresso. Foram abertas chamadas para pareceristas do XII Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo, para seleção de reportagens de excelência e para bolsas destinadas a jornalistas que atuam em desertos de notícias. A entidade também divulgou mais uma edição do Prêmio Cadeado de Chumbo, que denuncia os retrocessos na transparência pública. O final de mês contou, ainda, com a publicação de um levantamento realizado pelo CruzaGrafos sobre grandes infratores ambientais no país.
Junho manteve o ritmo intenso para o Congresso. A Abraji começou a divulgar a programação detalhada do evento e abriu o segundo lote de ingressos. No âmbito internacional, a entidade apresentou projetos de jornalismo de dados no TICtec 2025 (Conferência sobre os Impactos da Tecnologia Cívica, em português), na Bélgica.
O mês também contou com o lançamento do relatório da Abraji sobre ataques à liberdade de imprensa no Brasil; o estudo mostrou o crescimento de ataques à imprensa liderados por cidadãos comuns influenciados pela retórica antimídia. A associação também participou de audiências públicas no Supremo Tribunal Federal (STF), defendendo a transparência e a fiscalização das chamadas emendas Pix, tema que atravessou todo o ano.
20º Congresso e a despedida de Marcelo Beraba
Julho foi marcado pela realização do 20º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, que reuniu jornalistas de todo o país em uma edição especial em comemoração à 20ª edição, com recorde de diversidade, palestrantes e iniciativas de inclusão. O evento contou com sabatinas com autoridades como o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz e com a CEO da COP 30, Ana Toni, além de mesas sobre temas como cobertura especializada, Inteligência Artificial, técnicas de investigação, entre outros temas importantes para o jornalismo. O evento também contou com uma programação especial só sobre jornalismo de dados: a 6ª edição do Domingo de Dados, que focou em oficinas práticas, apresentações, curadorias e recebeu apoio do R Consortium e da Python Software Foundation.
“A gente chegou à 20ª edição do Congresso fazendo o maior evento de todos os tempos, com muitos palestrantes e também com o aumento do número de bolsas, chegando a 141 bolsas. Esse também é um avanço para que a gente tenha, cada vez mais, a participação de todos os segmentos da sociedade e de todos os territórios”, acrescentou Brembatti.
Ainda no início de julho, também teve o lançamento do curso gratuito “Reporta+ : mecanismos de controle, transparência e jornalismo investigativo”, organizado pela Abraji e Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon).
O mês também foi um período de luto para o jornalismo brasileiro, com a morte de Marcelo Beraba, aos 74 anos, no Rio de Janeiro. Fundador da Abraji e um dos principais nomes do jornalismo investigativo no país, Beraba teve uma trajetória de mais de cinco décadas marcada pelo compromisso ético, pela formação de equipes e pelo fortalecimento das melhores práticas profissionais. Sua atuação em redações como O Globo, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, TV Globo e O Estado de S.Paulo influenciou gerações de repórteres e deixou um legado duradouro para a imprensa brasileira.
“Não poderíamos esquecer nossa principal perda, que foi a morte de um dos fundadores e idealizador da Abraji, Marcelo Beraba, que nos deixou logo depois do Congresso. Foi uma perda muito dolorosa, mas a gente tem a obrigação de manter o legado dele para sempre”, destacou Brembatti.
Final do terceiro trimestre: Projeto Inspiração e o combate ao assédio judicial
Em agosto, a Abraji consolidou os resultados do Congresso, com parcerias com organizações como Alma Preta, Eficientes, Transmídia, Oboré e ESPM-SP, que ampliaram os debates sobre jornalismo negro e antirracista, diversidade racial, acessibilidade, representatividade e formação acadêmica. O programa de bolsas para o 20º Congresso foi destacado como ferramenta essencial de inclusão, e a versão online do Congresso foi disponibilizada gratuitamente, ampliando o acesso aos conteúdos.
A entidade também lançou o Projeto Inspiração, dedicado a preservar a memória e as trajetórias de jornalistas que marcaram a profissão. Idealizado pela então diretora da Abraji, Elvira Lobato, o intuito da iniciativa é deixar registrada fatos marcantes e práticas jornalísticas de profissionais que fizeram história no Brasil.
“Durante o Congresso deste ano, a gente lançou o Projeto Inspiração, que tem esse objetivo de mostrar exemplos de jornalistas que são admirados pelo trabalho que fizeram e fazem. É uma iniciativa que está só começando, tem novas fases previstas, e a gente lançou tanto os materiais em vídeo quanto um documentário com todos os homenageados de todos os anos do Congresso”, disse Brembatti. Até o momento, já foram homenageados Dorrit Harazim, José Hamilton, Rosental Calmon e Joel Silveira. Confira o Inspiração.
No campo institucional, marcando agosto e setembro, a Abraji participou do Seminário "Liberdade de Imprensa e o Poder Judiciário, organizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o STF. Durante o evento, a organização realizou o lançamento de um painel estatístico em parceria com o CNJ, o Instituto Tornavoz e o Jusbrasil sobre processos envolvendo liberdade de imprensa.
Setembro marcou a retomada das ações estruturantes. A Abraji lançou editais e bolsas para financiar reportagens ambientais e sobre transição climática, em parceria com organizações como o WRI Brasil. Também abriu seleção de mentores para o projeto Defensores Ambientais, promoveu webinars explicativos sobre os editais e desenvolveu um projeto voltado para o fortalecimento da aplicação da Lei de Acesso à Informação (LAI) nos municípios.
“A gente teve várias iniciativas e eu destacaria aqui, além da atualização do Monitor de Assédio Judicial, o lançamento de um painel de ações contra a imprensa em parceria com o CNJ, o Instituto Tornavoz e o Jusbrasil. Então, nessa parte de assédio judicial, a gente tem atuado bastante”, pontuou Brembatti.
O mês terminou com a participação da Abraji no Coletivo RPU Brasil, que atua no monitoramento da situação dos direitos humanos no país desde 2017 e lançou, à época, o Relatório de Meio Período do 4º Ciclo da Revisão Periódica Universal (2022–2025). O relatório reúne análises de mais de 39 organizações da sociedade civil, incluindo a Abraji, sobre como o Brasil tem implementado as recomendações da ONU em direitos humanos.
Reta final de 2025
Durante outubro, a Abraji intensificou o debate sobre clima, tecnologia e democracia. Foram publicados conteúdos sobre neutralidade de emissões e estratégias de longo prazo, apresentando os fundamentos das Estratégias de Longo Prazo (LTS), bem como o lançamento de uma iniciativa voltada ao uso ético e qualificado da inteligência artificial no jornalismo. Parcerias com a Talanoa viabilizaram bolsas e treinamentos sobre adaptação climática. A entidade também realizou eleições internas para a diretoria do biênio 2026–2027 e levou ao STF uma ação contra restrições ao acesso a informações salariais do Ministério Público.
A entidade também levou ao STF uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra trechos da Resolução nº 281/2023 do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que trata da transparência sobre a remuneração de servidores. Esta é a quarta ação movida pela Abraji no STF, além de outras em que a associação atua como amicus curiae.
Além da extensão do acesso gratuito ao Congresso online até novembro, o mês concentrou mudanças institucionais. A nova diretoria foi eleita e apresentada aos associados, elegendo as jornalistas Carol Moreno e Juliana Dal Piva como presidente e vice-presidente, respectivamente, para o biênio 2026-27.
No penúltimo mês do ano também foram divulgados os nomes dos jornalistas contemplados com bolsas de reportagem em parceria com o Instituto Talanoa, voltadas para à adaptação climática e publicado os novos conteúdos do Kit de Ferramentas Gemini para jornalistas, iniciativa voltada ao uso de ferramentas digitais e de IA. O mês foi finalizado com a presença da Abraji no Global Investigative Journalism Conference (GIJC), realizado na Malásia, destacando a presença internacional do jornalismo investigativo brasileiro e a troca de experiências globais. Estiveram presentes no GIJC o coordenador de projetos Reinaldo Chaves, a secretária executiva Adriana Garcia, a diretora Juliana Dal Piva e Guilherme Amado, ex-vice-presidente da associação e atual membro do board da Global Investigative Journalism Network (GIJN).
Com a chegada de dezembro, a Abraji encerrou o ano com o lançamento da versão digital gratuita do Guia Caravana, a apresentação de embargos de declaração ao STF sobre decisão que altera o Marco Civil da Internet, a participação em audiência no Senado sobre violência contra jornalistas, realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) e mais um ano de parceria entre a Abraji e o Farol Jornalismo com a divulgação da 10ª edição do Especial Jornalismo no Brasil em 2026.
Ao longo do mês, também foram publicados novos relatórios do Monitor de Assédio Judicial, realizados webinars e divulgados conteúdos do Kit Gemini, que mostram como a Inteligência Artificial pode apoiar a cobertura eleitoral, além do anúncio do adiamento das inscrições para bolsas de reportagem, em parceria com a Talanoa, até 10 de janeiro, ampliando a participação de jornalistas.
Ao longo de 2025, a Abraji combinou atuação institucional, formação profissional e apoio ao jornalismo, especialmente o local, para enfrentar desafios centrais da profissão. A entidade esteve presente em debates no STF e em outras instâncias públicas sobre transparência, emendas Pix e assédio judicial, ao mesmo tempo em que ampliou o acesso à capacitação com cursos gratuitos, bolsas, editais e projetos como o Caravana, o Comprova e o Defensores Ambientais. A realização do 20º Congresso, com recorde de diversidade e participação, e o investimento em temas como cobertura climática, inteligência artificial e jornalismo territorial consolidaram uma agenda voltada à defesa do jornalismo e do direito à informação.