
- 04.09
- 2026
- 12:50
- Samara Meneses
Liberdade de expressão
Acesso à Informação
Abraji lança guia de autoproteção na cobertura eleitoral para jornalistas
A um mês das eleições, o aumento de violência a jornalistas que atuam na cobertura eleitoral já é alarmante. Casos de assédio judicial e violência digital despontaram nesta semana, chamando a atenção para a necessidade de proteger a atividade jornalística. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) lança um guia de proteção para repórteres durante a cobertura. O documento “Autoproteção na cobertura eleitoral: um guia de prevenção de ataques contra a liberdade de imprensa”, apoiado pelo IFEX (International Freedom of Expression Exchange), reúne recomendações práticas para a construção de um plano de prevenção de segurança física, digital, jurídica e de saúde mental.
Acesse o Guia de Prevenção e Proteção para as Eleições
Criar e seguir um protocolo de segurança é importante para todo jornalista, ainda mais em um período em que os profissionais de imprensa podem estar mais suscetíveis a ataques e ofensas. Como os ataques recentes direcionados à vice-presidente da Abraji, Juliana Dal Piva, ainda nesta semana. Isso aconteceu depois que o ICL Notícias, do qual Dal Piva é colunista, publicou os desdobramentos do caso Master e áudios vazados entre Daniel Vorcaro e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL).
Ao mesmo tempo, o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo e seus seguidores têm dirigido ameaças e comentários hostis à jornalista Natália Viana, da Agência Pública, nas redes sociais. Os ataques surgiram após reportagens investigativas realizadas por Natália e sua equipe, que abordam doações feitas a uma deputada americana e o estilo de vida do influenciador e o ex-deputado Bolsonaro nos Estados Unidos. Recentemente, foram alvos de Figueiredo as jornalistas da Rede Globo e GloboNews. Também nesta semana, a Mídia Caeté foi vítima de uma decisão do TRE de Alagoas de retirada de conteúdo de reportagem de interessse público.
Em 2022, 557 alertas de ataques foram registrados pela Abraji — o maior pico já identificado. A partir de 2023, os números diminuíram, mesmo assim, em 2024, 40,9% dos casos envolveram agressões físicas, ameaças, intimidações ou destruição de equipamentos.

Os ataques ao trabalho da imprensa são variados, como demonstra o levantamento da Abraji. No ano de 2025, 36,3% dos alertas envolveram agressões verbais, escritas ou digitais. Em um ano sem eleições, mas com temperatura alta no debate político, foram 204 registros de ataques.
No meio digital, o resultado é alarmante: em 2025, 55,4% dos ataques registrados começaram nas plataformas digitais ou alcançaram grande repercussão nelas. Além disso, 68,6% das vítimas eram repórteres e analistas, o que revela uma violência cada vez mais direcionada aos profissionais, e não apenas aos veículos. A autoria também se diversificou: atores estatais responderam por 43,6% dos casos, enquanto 44,6% envolveram atores não estatais. O aumento da agressividade da abordagem dos agentes públicos aos jornalistas parece dar uma "autorização" para que as agressões sejam ainda mais violentas por parte dos agentes não estatais.

Acesse o Monitoramento de Ataques 2025
Por isso, é preciso que as redações e repórteres independentes se preparem ainda mais. Jornalistas devem avaliar os riscos, fortalecer sua segurança digital, conhecer seus direitos e definir antecipadamente como agir diante de situações de violência.
O guia apresenta uma avaliação preliminar dos riscos envolvidos na cobertura. Em situações mais calmas, adotar cuidados preventivos básicos já contribui para a sensação de segurança e preparação para eventuais imprevistos. Em situações mais delicadas ou perigosas, o alerta deve ser ampliado, exigindo uma atenção redobrada e maior vigilância. Até o momento em que chegamos a uma emergência, quando já vivenciamos algum tipo de violência e precisamos entender como proceder. É importante também estar em rede com outros jornalistas, em sintonia com suas redações e buscar ajuda de organizações de defesa da liberdade de imprensa.

Uma das orientações é que o profissional pense cuidadosamente antes de entrar em campo, a fim de minimizar os riscos. Quais são os objetivos? Quem pode ser prejudicado? O que pode ocorrer? Estou preparado? É o momento adequado para conduzir essa investigação? Estas são algumas das indagações.
Confira também o Curso de Segurança para Jornalistas na Cobertura Eleitoral
O Guia de Prevenção ensina práticas que ajudam a proteger jornalistas e suas fontes, como trabalhar em rede, proteger contas de redes sociais, mapear adequadamente a área de cobertura, identificar locais importantes como delegacias, hospitais e órgãos públicos, além de preservar documentos e provas.
Também é importante considerar os sinais de alerta do corpo e da mente que nos conduzem ao cansaço, à exaustão, à falta de ânimo e ao esgotamento. A saúde mental não é um problema pessoal, mas um desafio coletivo.
A Abraji também realizou um curso de segurança física para a cobertura eleitoral, que está disponível gratuitamente no Youtube da organização. Basta entrar neste link.
Confira a entrevista concedida à Abraji, no início deste ano, pela jornalista e pesquisadora Cilene Victor, autora de estudos sobre os impactos psicológicos na carreira jornalística, sobretudo em coberturas de eventos extremos.
A Abraji, por meio do seu Núcleo de Segurança, atende jornalistas em risco, faz o acompanhamento, registro e encaminhamento de casos de violência , sejam ataques contra a segurança física, digital ou jurídica para a assistência e comunicação. O apoio pode ser solicitado por email para [email protected] ou no site.
Outros materiais preparados por organizações como a Abraji, a Artigo 19 e a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) estão disponíveis com recomendações para fortalecer a segurança física, digital e jurídica de jornalistas e veículos de comunicação. Alguns desses materiais podem ser consultados nos links abaixo: