Abraji completa 15 anos e pensa seu futuro
  • 07.12
  • 2017
  • 18:28
  • Mariana Gonçalves

Formação

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Acesso à Informação

Abraji completa 15 anos e pensa seu futuro

Na manhã de 7 de dezembro de 2002, num auditório lotado na Escola de Comunicações e Artes da USP, cerca de 140 jornalistas ergueram os braços concordando em iniciar o que se tornaria uma das principais organizações de jornalistas do Brasil. 

A ocasião era a segunda edição do seminário “Jornalismo investigativo: ética, técnicas e perigos”, que também havia acontecido em agosto daquele ano no Rio de Janeiro. O evento, promovido pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, respondia aos anseios de grande parcela de jornalistas no país.

Fazia seis meses que o jornalista Tim Lopes, da TV Globo, havia sido perseguido, sequestrado, torturado e assassinado enquanto realizava uma investigação na capital fluminense. A semente que sua morte plantou não só alertou a imprensa brasileira para os perigos que se abatem sobre quem exerce o jornalismo no país como gerou, em contrapartida, um movimento de união e resistência entre seus colegas de profissão.

O pontapé que levou à criação da Abraji surgiu de uma troca de e-mails de uma rede de 45 jornalistas, iniciada em setembro de 2002 por Marcelo Beraba, sensibilizado com a tragédia de Tim. A ideia de criar uma entidade que protegesse e representasse os jornalistas no país e também contribuísse para o desenvolvimento da imprensa recebeu, aos poucos, o apoio de entidades representativas e de departamentos de jornalismo de universidades Brasil afora. 

Quinze anos se passaram desde o evento que marcou a fundação da associação. Nesse tempo, “a Abraji conseguiu se tornar uma instituição que representa a opinião do jornalista brasileiro”, diz Marcelo Moreira, que foi presidente da associação em 2012 e 2013. O jornalista acredita que a Abraji deve dar continuidade ao “caminho bem sucedido que vem fazendo nos últimos anos”. “Começamos do zero e hoje organizamos um dos maiores congressos de jornalismo do Brasil”, exemplifica. 

Entre as ações da Abraji, Marcelo Beraba, presidente de 2003 a 2007, destaca o Programa Tim Lopes, que procura apurar quem mata e quem manda matar jornalistas no Brasil. Seu desejo é de que, a médio prazo, o projeto não só seja consolidado, como amplie suas ações. “Gostaria de que, no futuro, o programa não apenas tratasse de homicídios e crimes gravíssimos, mas de outras ameaças e ataques, garantindo maior segurança dos jornalistas e da livre expressão”, diz. 

“Temos que continuar investindo nas lutas do jornalismo, batalhando por um país em que a imprensa seja livre e a transparência seja maior”, completa Moreira. Ele destaca a importância da atuação da Abraji por meio de projetos como o CTRL+X e o Achados e Pedidos, cujo trabalho pressiona autoridades e governos a agir em favor da livre circulação de informações, tanto as produzidas pela administração pública quanto as apuradas e publicadas pelos jornalistas.

Ao longo de 2017, a Abraji ampliou sua presença no país por meio de oficinas de jornalismo de dados e de Lei de Acesso à Informação. Os cursos oferecidos pela associação foram levados a Manaus, Recife, Porto Alegre e Londrina, treinando dezenas de jornalistas. Beraba espera que essas ações se consolidem no interior do Brasil, conquistando novos associados e trazendo mais diversidade para a organização.

“Precisaremos ter à frente da Abraji gente focada, criativa e diversificada para colocar esses objetivos em pé”, ele diz. “E, principalmente, gente com compromisso para torná-la autossustentável.”

Essa também é uma das expectativas de Thiago Herdy, que encerra no fim deste ano o mandato como presidente da associação. Ele espera que a Abraji alcance sua sustentabilidade por meio de um fundo patrimonial (ou endowment) que lhe dê mais independência e torne seu funcionamento perene. O fundo, que está em fase de regulamentação, pode financiar novos projetos e garantir à organização segurança para manter os que já tem.

O jornalista e diretor do Centro Knight, Rosental Calmon Alves, acrescenta que os desafios dos próximos quinze anos da associação serão muito maiores do que nos últimos. “A credibilidade e os modelos de negócios dos jornais estão sendo atacados de maneira nunca vista, em muitos lugares”, diz. “Acho que, nos próximos anos, vamos ver como é bom que o Brasil tenha uma organização como a Abraji, que tem interesse em melhorar a qualidade do jornalismo no país.”

Herdy concorda: “O jornalismo de qualidade é uma demanda cada vez maior da sociedade, contexto que favorece a defesa dos valores fundamentais da nossa atividade, a reflexão constante sobre o que estamos fazendo e o consequente amadurecimento da nossa imprensa”.

Para Beraba, a Abraji também deve dar mais atenção às novas plataformas e iniciativas jornalísticas, indo além do espaço já oferecido nos Congressos. “Temos que ajudá-las a crescer e atingir novos padrões de qualidade, e apoiá-las quando sofrerem”, diz. 

Uma ação desse tipo foi desenhada neste ano por meio do projeto “Jornalismo e periferias”, em que jornalistas profissionais convidados pela Abraji realizam treinamentos sobre técnicas e ferramentas de investigação com comunicadores das periferias e favelas em diversas capitais do Brasil. Angelina Nunes, presidente no biênio 2008-2009, é uma das instrutoras do projeto, junto com Beraba. “Uma experiência incrível de troca de vivência e prática de jornalismo nas comunidades”, ela conta. 

“A Abraji criou pilares muito sólidos, nos quais ela pode construir uma fortaleza ainda maior de uma organização aberta, transparente e democrática”, afirma Rosental Calmon Alves. “Desejo sucesso para que, nos próximos anos, a associação continue dando a contribuição que deu até hoje para o jornalismo no Brasil.”


(Foto: Alice Vergueiro)

Assinatura Abraji