• 21.12
  • 2004
  • 19:53
  • MarceloSoares

Wallraff, o repórter que virou verbo

DO APURAÇÃO, BOLETIM DA ABRAJI

"Resolver os problemas depende primeiro de torná-los visíveis, mostrar o que é insustentável. É como na medicina: muitos fazem bons diagnósticos, mas não são necessariamente bons cirurgiões", afirmou o jornalista alemão Günter Wallraff, um dos repórteres mais polêmicos e populares do mundo, em seminário promovido pela Abraji e pelo Instituto Martius-Staden em São Paulo, no dia 23 de novembro.

Wallraff tem quatro décadas de experiência em seus diagnósticos. O que o torna popular são seus livros contundentes sobre os intestinos da sociedade, da economia e da mídia alemãs. O que o torna polêmico é seu método: usa disfarces e pseudônimos para infiltrar-se em locais-chave, vive neles, sente na pele as situações que vai denunciar. Em países escandinavos, afirma, seu nome inspirou o verbo “wallraffen” – usar disfarces para desmascarar alguém. Ele se impõe apenas um limite: “a vida particular, íntima, das pessoas não faz parte da investigação”.

Seus livros são adotados no ensino alemão. O mais conhecido, “Cabeça de Turco”, já foi publicado em 33 países e foi republicado no Brasil neste ano. Não saiu, porém, nos Estados Unidos. “A editora americana temia uma avalanche de processos”, afirmou. Na Alemanha, ele passou dois anos no tribunal após a publicação, em 1985.

Wallraff iniciou sua carreira na imprensa sindical, expondo os para os trabalhadores das fábricas alemãs. Algumas indústrias, após suas denúncias, distribuíram fotos tentando impedir que ele se infiltrasse. Com isso, Wallraff passou a se disfarçar para continuar suas infiltrações.

O cartaz de sua “turnê” pelo Brasil (Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba e São Paulo) mostra um currículo e tanto: sem-teto, operário, prisioneiro político grego, redator yuppie, chofer português, imigrante turco, fugitivo africano. O trabalho é duro: na Grécia (“meu trabalho mais difícil e ao mesmo tempo o mais fácil de entrar”), distribuiu panfletos para provocar sua prisão e passou 77 dias preso e torturado, até o fim da ditadura grega, em 1974. Ganhou uma hérnia de disco pela apuração de “Cabeça de Turco”, em 1985.

Wallraff conta nos dedos os jornalistas que fazem trabalho semelhante: cita um alemão, um chinês e uma francesa. Na Alemanha, segundo ele, a lei permite que sociólogos se disfarcem para fazer pesquisa participante. Ele obteve na Justiça o reconhecimento de seu trabalho como tal. “Há um triste fator que me ajuda a compor os disfarces: nem os operários olham para os subempregados, como se eles não existissem”, diz, mencionando um sociólogo catarinense que lhe disse ter tido a mesma impressão quando trabalhou como lixeiro em uma pesquisa.

Na conversa com sócios da Abraji, no dia 22, lembrou-se o assassinato de Tim Lopes, capturado por traficantes em 2002 depois de se infiltrar com uma câmera oculta num baile funk onde ocorreriam shows de sexo explícito com menores. Wallraff reconheceu o risco em se infiltrar no narcotráfico, mas disse que o Brasil é um campo riquíssimo: “se o perigo das favelas for grande demais, pode-se viver entre seringueiros, garimpeiros, catadores de papel”. O importante, para ele, é expor as entranhas da sociedade.

Wallraff quer fazer uma investigação no Brasil, possivelmente em 2005. Quer conhecer a Amazônia, o garimpo, os canaviais. Quando voltar, vai procurar a Abraji e seus sócios para obter dicas e informações. Disse admirar o fato de haver no Brasil um grupo que estimule o jornalismo investigativo. Na Alemanha, segundo ele, a prática é marginalizada. "Muitos jornais estão em perigo, por falta de dinheiro”, disse. Com isso, a imprensa fica dependente de políticos e de "empresas que contratam porta-vozes para passarem uma imagem conveniente delas".

Para repórteres que queiram seguir seus passos, lembrou as dificuldades judiciais para esse tipo de reportagem quando se trabalha numa grande empresa. “Quando você é um jovem freelancer, porém, não há essas limitações”, disse. Ele sugere que os interessados busquem financiamento em fundações estrangeiras (a Suécia tem tradição desde os anos 60) e se reúnam em associações como a Abraji, para se fortalecerem.


PARA LER

Dois livros de Wallraff foram publicados no Brasil, ambos pela Editora Globo.
“Cabeça de Turco” (1985) tem o subtítulo “uma viagem aos porões da sociedade alemã”. No início dos anos 80, Wallraff disfarçou-se como o imigrante turco Ali Sinirlioglu, que se oferece para trabalhar em condições aviltantes. Vira chapista do Mc Donald’s, peão da construção civil, metalúrgico e vedador de tubos radiativos numa usina nuclear à la Simpsons. Em seu percurso, revela como os imigrantes que vivem na Alemanha se submetem ao subemprego e ao preconceito para sobreviver.

“Fábrica de Mentiras” (1977) conta a história de Hans Esser, um “yuppie” ambicioso que trabalha por quatro meses no Bild, o jornal mais vendido da Alemanha. Esser é, na verdade, Wallraff. O livro mostra como o tablóide distorce notícias e expõe os desfavorecidos, e lhe rendeu a mais longa bateria de processos de sua vida: seis anos no tribunal. Diversos trechos não puderam ser publicados na Alemanha, por ordem judicial. A disputa tem ecos até hoje. Recentemente, Wallraff foi acusado por um dos jornais da rede Springer, que publica o Bild, de ter sido espião da Stasi, equivalente à KGB na Alemanha Oriental. Ele nega.
Assinatura Abraji