Série "Marcados para Morrer" revela padrão de ameaças contra lideranças indígenas em Rondônia
  • 15.04
  • 2026
  • 12:42
  • Abraji

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Série "Marcados para Morrer" revela padrão de ameaças contra lideranças indígenas em Rondônia

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) anuncia a publicação de "Marcados para Morrer", série de quatro reportagens investigativas produzidas pela jornalista Josi Gonçalves, cofundadora do veículo Voz da Terra, de Porto Velho. O material é a 11ª produção apoiada pelo projeto Defensores Ambientais e foi publicado no Voz da Terra. O trabalho contou com a mentoria editorial do jornalista Rubens Valente e a orientação de segurança física em campo da jornalista Angelina Nunes.

A série percorre territórios indígenas no interior de Rondônia para documentar as ameaças de morte, as invasões e as falhas de proteção estatal que cercam lideranças que atuam na defesa de seus territórios e da floresta. O resultado é uma investigação que articula os relatos individuais das vítimas com a análise das estruturas institucionais que deveriam protegê-las — e que, na prática, não conseguem fazê-lo.

Criado em 2023, o Defensores Ambientais é um projeto que tem o objetivo de promover a democracia ambiental e a proteção de defensores do meio ambiente no Brasil. Além da Abraji, a iniciativa reúne outras quatro instituições: a Transparência Internacional – Brasil, o Instituto Centro de Vida (ICV), o Instituto Ethos e a Operação Amazônia Nativa (OPAN). O projeto tem o apoio financeiro da Agence Française de Développement (AFD). No âmbito da Abraji, o projeto seleciona jornalistas da Amazônia Legal por meio de editais, oferece apoio financeiro de até R$ 15 mil por investigação, mentoria editorial e treinamento obrigatório de segurança física e digital em campo. "Marcados para Morrer" é a 11ª produção investigativa apoiada pelo projeto.

Cinco mil reais era o preço da minha cabeça

A primeira reportagem da série, intitulada "Cinco mil reais era o preço da minha cabeça", acompanha a trajetória da cacica Hozana Puruborá, de 64 anos, liderança da aldeia Aperoí, no município de Seringueiras, no Vale do Guaporé. Para chegar até a aldeia, a equipe do Voz da Terra percorreu cerca de 540 quilômetros a partir de Porto Velho, em quase 12 horas de estrada pelas rodovias BR-364 e BR-429, sob chuva constante do inverno amazônico e em meio ao tráfego intenso de carretas carregadas de grãos. 

Hozana carrega o posto de primeira cacica mulher de Rondônia e lidera a luta pela demarcação do território Puruborá, povo que foi dispersado ao longo do século XX durante o ciclo da borracha e o processo de ocupação da região. A reportagem registra que as ameaças contra a cacica se intensificaram a partir dos anos 2000, quando o povo começou a se reorganizar publicamente. Em 2005, um amigo a avisou de que homens planejavam matá-la naquela mesma noite. A maloca sagrada da comunidade foi incendiada às vésperas de uma celebração que reuniria indígenas espalhados por todo o estado. Placas crivadas de balas na entrada da aldeia testemunham a rotina de intimidação.

A segunda reportagem, "Nossas cabeças estão a prêmio", desloca o foco para a Terra Indígena Karipuna, a 180 quilômetros de Porto Velho, acessível pela BR-364 e por estradas precárias que cortam a floresta. A equipe percorreu o trajeto até a aldeia Panorama, onde vivem os 64 remanescentes do povo Karipuna. Na década de 1970, os Karipuna estiveram à beira do desaparecimento: invasões e doenças reduziram a população a oito sobreviventes — quatro adultos e quatro crianças, segundo registros do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). 

Mais de meio século depois, as ameaças persistem. Os irmãos André e Adriano Karipuna, principais lideranças do território, vivem sob pressão de grileiros, madeireiros e criadores de gado que avançam sobre uma terra indígena homologada em 1998, com 153 mil hectares. O cacique André já recebeu cartas ameaçadoras. Adriano, que leva denúncias a órgãos federais e instâncias internacionais, relata ameaças por telefone e recados indiretos. Um posto de vigilância da Funai no território foi queimado em retaliação. 

Mesmo após operações federais de desintrusão — a retirada oficial de invasores de terras homologadas —, os ocupantes retornaram. A matriarca Katiká, que viveu o período mais dramático da história recente do povo, é apresentada como a memória viva dos Karipuna, responsável por transmitir cultura e conhecimento às novas gerações nas rodas de conversa da aldeia.

A terceira reportagem, "Por que o sistema falha e deixa desprotegidos os que estão ameaçados?", cruza as histórias de Hozana e dos irmãos Karipuna para examinar as razões pelas quais denúncias repetidas não resultam em proteção efetiva. O procurador da República em Porto Velho Raphael Luís Pereira Beviláqua identifica o problema central: Rondônia não possui programa estadual próprio de proteção a defensores de direitos humanos. O estado depende integralmente de estruturas federais — o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) e o Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Provita) — operados a partir de Brasília, com equipe reduzida e cobertura limitada. O PPDDH atua para manter o defensor no território; o Provita o retira em situações extremas. Na teoria, são complementares. Na prática, a transição entre eles apresenta falhas. 

A reportagem expõe uma equação perversa: a ameaça ocorre no território, mas a proteção depende de um sistema distante, que não está inserido na realidade local. O próprio procurador reconhece que a responsabilização, quando ocorre, costuma vir depois da tragédia consumada.
A quarta e última reportagem, "Violência contra indígenas em Rondônia segue padrão e revela rede de invasões na Amazônia", amplia o olhar para demonstrar que os casos retratados nas reportagens anteriores não são episódios isolados, mas expressões de uma dinâmica recorrente e organizada. A irmã Laura Vicuña, missionária do Cimi que acompanha os conflitos na região, aponta a existência de uma rede criminosa que opera em Rondônia e se estende por toda a Pan-Amazônia. A lógica de atuação — ocupação, pressão, permanência — se reproduz na Bolívia, no Peru e na Colômbia com o mesmo padrão. 

A reportagem traz dados que dimensionam o problema: o Cimi registrou 424 casos de violência contra pessoas indígenas no Brasil em 2024, incluindo 211 assassinatos, o que corresponde a uma taxa de 12,46 homicídios por 100 mil indígenas. A missionária destaca ainda o adoecimento mental das comunidades como efeito colateral da pressão constante. E aponta que as invasões envolvem movimentação significativa de dinheiro — pontes destruídas que reaparecem em dias, derrubadas que custam milhares de reais por hectare — indicando financiamento organizado por trás dos ocupantes que aparecem no território.

Ao longo das quatro reportagens, a série documenta com rigor e proximidade uma realidade que se repete em diferentes territórios de Rondônia: lideranças que denunciam, mas continuam expostas; estruturas de fiscalização destruídas ou abandonadas; e um Estado que, na ponta, não acompanha a gravidade das ameaças. As lideranças ouvidas pela série compartilham uma motivação: não lutam apenas por si. Lutam pelas gerações que virão.

A produção de "Marcados para Morrer" exigiu deslocamentos extensos por rodovias precárias e estradas vicinais de terra, em condições de chuva e isolamento. A jornalista Josi Gonçalves e o fotógrafo Francisco Costa percorreram centenas de quilômetros entre Porto Velho e os territórios indígenas, com acompanhamento permanente do protocolo de segurança do projeto. A mentoria editorial de Rubens Valente — jornalista com larga trajetória na cobertura de questões indígenas e ambientais — orientou a construção narrativa da série, que avança de casos individuais para a análise estrutural. A orientação de segurança de Angelina Nunes garantiu o planejamento e o monitoramento dos riscos em campo, aspecto obrigatório em todas as reportagens financiadas pelo Defensores Ambientais.

Selecionada via edital voltado a jornalistas da Amazônia Legal, Josi Gonçalves é cofundadora do Voz da Terra, veículo de comunicação independente sediado em Porto Velho que cobre direitos humanos, povos originários e questões socioambientais em Rondônia.

As reportagens podem ser lidas nos links abaixo:

Assinatura Abraji