
- 22.04
- 2026
- 12:13
- Abraji
Reportagens sobre transição climática financiadas pela Abraji e WRI Brasil alcançam veículos nacionais e internacionais
Quatro investigações jornalísticas inéditas sobre a agenda climática brasileira foram publicadas em veículos nacionais e internacionais, financiadas pelo projeto "O Brasil pós-COP30: Caminhos para a neutralidade de emissões", iniciativa conjunta entre a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e o WRI Brasil. Foram selecionadas propostas jornalísticas por meio de edital público, com bolsas de R$ 8 mil cada, com publicações na Deutsche Welle, no The Guardian, na Agência Pública, no UOL Tab e em formato de podcast investigativo.
Os quatro jornalistas selecionados foram Ana Paula Rocha de Souza (Sergipe), Aline Scherer (Santa Catarina), Maurício Frighetto (Santa Catarina) e Carlos Henrique Cavalcanti Madeiro (Alagoas). As reportagens cobriram o lobby do carvão mineral no Congresso, os impactos da energia eólica sobre comunidades do Nordeste, as contradições da matriz energética de Sergipe e a expansão da exploração de petróleo na Amazônia.
O projeto foi lançado em setembro de 2025, no período que antecedeu a COP30, em Belém. Seu objetivo era qualificar a cobertura jornalística sobre as Estratégias Climáticas de Longo Prazo (LTS), instrumentos previstos no Acordo de Paris que orientam a descarbonização de cada país até 2050. A premissa era tratar a transição energética não como pauta exclusivamente ambiental, mas como tema que atravessa economia, política, relações de trabalho e vida cotidiana.
Os temas elegíveis foram organizados em dois eixos. O primeiro, Energia, abrangia a oferta — geração elétrica e combustíveis como eólica, solar, hidrelétricas, biomassa, petróleo, gás, hidrogênio e nuclear — e a demanda, ou seja, o consumo por setor (transportes, indústria, residências). O segundo eixo, Indústria, tratava dos setores difíceis de descarbonizar: óleo e gás, cimento, aço e químicos, ramos com processos térmicos e químicos intensivos sem os quais a meta de neutralidade de emissões não se sustenta. Durante toda a produção, os bolsistas contaram com mentoria técnica do jornalista Marcelo Träsel e com o apoio do time científico do WRI Brasil, que ficou à disposição para consultas sobre dados e conceitos.
Webinar de capacitação
Em 1º de outubro de 2025, antes do encerramento das inscrições, Abraji e WRI Brasil realizaram o webinar gratuito "Capacitação sobre LTS pré-COP30", com especialistas do WRI Brasil. A atividade explicou os fundamentos das Estratégias Climáticas de Longo Prazo, tirou dúvidas sobre o edital e orientou os jornalistas sobre como conectar as LTS com a realidade das comunidades. Os palestrantes recomendaram foco em soluções — não apenas em impactos — e em justiça climática, traduzindo conceitos técnicos para o cidadão comum. Também reforçaram que a ausência de planejamento de longo prazo em determinados setores poderia, por si só, render investigação jornalística.
A transmissão do webinar está disponível no canal da Abraji no YouTube. O material apresentado pode ser acessado neste link. O detalhamento do conteúdo do webinar e das oportunidades de reportagem foi publicado em texto no site da Abraji. Informações adicionais estão em outra publicação sobre o webinar e as bolsas.
As reportagens publicadas
Maurício Frighetto, de Santa Catarina, produziu duas investigações para a Deutsche Welle (DW) sobre a indústria do carvão mineral no sul do Brasil. A primeira, "Como o lobby do carvão freia a transição energética no Brasil", revelou que um projeto de lei para prorrogar a contratação de usinas a carvão até 2050 havia sido redigido no computador do presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável (ABCS). O mesmo texto foi apresentado por um deputado e, depois, inserido como emenda em uma Medida Provisória (MP) sobre o setor elétrico — aprovada com prazo reduzido para 2040. A reportagem detalhou que os subsídios ao carvão, pagos por todos os brasileiros na conta de luz por meio da Conta de Desenvolvimento Energético, giram em torno de R$ 1 bilhão por ano, segundo dados da Aneel. O Ministério do Meio Ambiente havia pedido o veto, argumentando que a medida contrariava a Política Nacional de Mudança do Clima e as metas de neutralidade assumidas em acordos internacionais.
A segunda reportagem de Frighetto, "Santa Catarina ainda não sabe como lidar com futuro pós-carvão", foi a campo no sul catarinense para mostrar os efeitos da mineração. Em Urussanga, o repórter percorreu áreas degradadas apelidadas de "paisagem lunar" — cinzas, crateras e cursos de água em tons laranja pela drenagem ácida de mina. O Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Capivari de Baixo, foi apontado como o maior emissor entre as térmicas brasileiras analisadas em 2024, segundo inventário do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema). O Conselho do Programa de Transição Energética Justa estava inativo havia três anos, sem alternativas concretas para os trabalhadores do setor. O presidente da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Extração de Carvão resumiu o impasse: sem empregos equivalentes e sem movimentação econômica nos municípios mineradores, a transição deixa de ser justa.
Carlos Henrique Cavalcanti Madeiro, de Alagoas, colunista do UOL, publicou investigação em duas partes sobre os custos humanos da expansão eólica no Nordeste. A primeira, "Fim do silêncio: eólicas atrapalham a vida e adoecem moradores no NE", publicada no UOL Tab, documentou queixas de saúde de pessoas que vivem próximas a parques eólicos. A segunda, "Contratos de eólicas pagam 1,5% de venda e impõem sigilo a moradores no NE", examinou as condições contratuais entre empresas e proprietários de terra — cláusulas de confidencialidade e pagamentos que representam fração mínima da receita gerada. As duas reportagens mostram uma dimensão pouco explorada da transição: o que acontece quando a expansão de fontes renováveis avança sem consulta adequada às comunidades que vivem no entorno dos projetos.
Ana Paula Rocha de Souza, de Sergipe, produziu pela Mangue Jornalismo o podcast "Sergipe verde, Sergipe fóssil", série investigativa que examina as contradições do estado na transição energética. No setor elétrico sergipano, 33% da eletricidade consumida vêm de termelétricas a gás fóssil. O podcast investiga os impactos ambientais e sociais dessas escolhas, os interesses econômicos envolvidos e o potencial ainda subutilizado de fontes renováveis na região. A série está disponível no Spotify e no canal da Mangue Jornalismo no YouTube. A Mangue Jornalismo é um veículo independente sediado em Aracaju, sem fins lucrativos, produzido pelo Centro de Estudos em Jornalismo e Cultura Cirigype.
Aline Scherer, de Santa Catarina, produziu duas reportagens publicadas em veículos de alcance nacional e internacional. A primeira, "Brazil's Amazon oil rush raises fears over indigenous consultation", publicada no britânico The Guardian, investigou a expansão da exploração de petróleo na Amazônia brasileira e as preocupações sobre a ausência de consulta prévia a comunidades indígenas afetadas. A segunda, "Fundo de transição energética atrasa e petróleo gera alerta", publicada na Agência Pública, examinou os atrasos na implementação do fundo de transição energética e os riscos da continuidade da dependência brasileira do petróleo, confrontando os compromissos climáticos assumidos pelo país com a realidade da política energética.
Alcance e relevância
No conjunto, as reportagens abordaram quatro frentes da transição climática brasileira: a resistência da indústria fóssil no Congresso, os impactos sociais da expansão renovável, as contradições regionais da matriz energética e os conflitos entre exploração de petróleo e direitos de comunidades tradicionais. Os materiais foram publicados em seis veículos distintos — DW, The Guardian, Agência Pública, UOL Tab, UOL Notícias e Mangue Jornalismo (podcast) — e cobriram cinco estados brasileiros: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Sergipe, Alagoas e Amazonas.
A diversidade geográfica e temática reflete a intenção do edital: não tratar a transição energética como pauta abstrata ou concentrada no Sudeste, mas como processo que atinge de maneiras distintas comunidades no Nordeste, no Sul e na Amazônia. As investigações revelaram que, apesar dos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, persistem contradições entre o discurso oficial de descarbonização e as políticas internas — na prorrogação de subsídios ao carvão, nos contratos com cláusulas de sigilo para moradores afetados por eólicas, ou na ausência de consulta a povos indígenas diante da expansão petrolífera.
Sobre o projeto
O projeto "O Brasil pós-COP30: Caminhos para a neutralidade de emissões" foi uma parceria entre a Abraji e o WRI Brasil, escritório brasileiro do World Resources Institute, organização de pesquisa que atua na interseção entre meio ambiente e desenvolvimento, com foco em clima, florestas, cidades e governança.