• 05.07
  • 2005
  • 16:36
  • MarceloSoares

Parelheiros é uma cidade que cabe num bairro

HEITOR AUGUSTO e JULIANA PENHA - REPÓRTER DO FUTURO

Domingo, 8h30, centro de São Paulo. Em frente ao Teatro Municipal, marcamos nosso ponto de partida. Destino: Parelheiros. Caminhamos até a Liberdade e pegamos um ônibus para o Metrô Santa Cruz com o objetivo de pegar o Terminal Parelheiros.

Um dia de sol já despontava, seguimos a viagem observando tudo. Primeira constatação: a péssima condição do ônibus estava velho e sujo. Mesmo num domingo, o ônibus lotou em pouco tempo. Mas nesse dia, as pessoas saíam para visitar parentes, passear. O povo sofre, viajando por mais de uma hora em pé para um passeio.

No caminho, pelas grandes avenidas da Zona Sul de São Paulo, muita gente no ponto, muitos buracos nas ruas e fachadas pouco convidativas. Adentrando os bairros, muitas oficinas mecânicas, postos de gasolina, borracharias, muitos e muitos bares, além de lojas abertas, principalmente de roupas. Algo marcante é a presença de igrejas evangélicas, que são muitas, de diferentes denominações.
01h40 depois, chegamos ao Terminal Parelheiros e, a primeira surpresa: um terminal organizado, limpo e sistematizado.

Parelheiros é um distrito da região sul da zona metropolitana de São Paulo com uma população estimada em 111.240 habitantes. Lá existem quatro escolas de ensino infantil, cinco de ensino fundamental, nenhum hospital e seis UBS (Unidades Básicas de Saúde). Um dado trágico é a presença de 55 favelas na região, com o número 14.793 habitantes. No bairro, 61% da população vive com até 5 salários mínimos e 23% não tem rendimento. A região não possui nenhuma casa de cultura, biblioteca ou teatro.

Domingo é dia de descanso, mas muita gente não pára. Tudo aberto: supermercados, padarias, bares, lanchonetes, restaurantes, comércio ambulante, lojas de vestimentas, alimentos, variedades, cabeleireiros e etc.

Caminhamos pelos arredores do terminal e, logo na frente, havia um grande campo de futebol onde dois times de várzea disputavam um troféu que chegou num carro com som alto e homens gritando.

Naquele domingo, era a eleição para o Conselho Tutelar. Na Rua do Terminal havia uma escola e muitas pessoas faziam “boca de urna” para seus candidatos. Fomos abordados por uma jovem de 17 anos, Bruna, que nos entregou um panfleto com a foto e o número de um candidato. "Não sei o que meu tio faz e não sei o que ele fez de bom para ser candidato. Eu sei que é Conselheiro Tutelar", respondeu a sobrinha do candidato Pastor Hamilton Carvalho.

Logo em seguida, um senhor se aproxima e também pede votos. Era o pai do candidato trabalhando na distribuição de panfletos. Ainda na rua do terminal, fomos abordados por outros candidatos e pessoas que trabalhavam para os mesmos. Nenhum deles apresenta propostas coerentes com a necessidade da criação de políticas públicas que atendam as crianças e adolescentes da região.

Às 11h27, sentamos para comer um pastel (R$1,00) e tomar um "refrigereco" - nome dado aos refrigerantes de marcas desconhecidas. Bem atrás da barraca havia um esgoto a céu aberto, com vasta mata, esquecido. Depois do pastel, seguimos sem destino.

Ao passar em frente a uma Igreja Universal do Reino de Deus, ouvindo o discurso inflamado do pastor, decidimos entrar. Por acaso, era exatamente a hora do dízimo. A música aumenta, o pastor altera sua voz e as pessoas se levantam, seguindo até o altar, deixando suas contribuições e voltando a seus assentos, satisfeitos. Pessoas simples, na maioria mulheres, ouviam com atenção e esperança as "palavras de fé" e se convenciam a contribuir. Algumas sentiam-se constrangidas por não ter a quantia determinada "50, 30,20,10 reais". "Mas aquela ´moedinha milagrosa´ todo mundo têm", garantia o pastor. "Imagine 100 homens de Deus doando 10 centavos cada", incentivou ele. Com isso, a maioria levantou-se.

Em 10 minutos de culto, o pastor pediu dinheiro em três ocasiões diferentes: para as obras da igreja, para a evangelização (os freqüentadores compram exemplares do jornal da igreja e os doam, tentando trazer mais fiéis), e para os assentos da igreja. Para estes, ele pediu que cada fiel doasse R$ 85. "Eu pedi para o povo da manhã e não tenho vergonha, pois não pedi pra mim. Quero pedir sua ajuda por fé, porque não fará falta. Quero o nome de quem contribuiu para orar pela pessoa. Deus te abençoará". Quatro pessoas levantaram. Era pouco, e o pastor foi reduzindo o pedido. Ao chegar a R$11, 14 pessoas levantaram para pagar.

Na saída da igreja, encontramos mais uma candidata ao Conselho Tutelar, Amandaliz, freqüentadora da igreja, formada em magistério. "Quero garantir a saúde, higiene é imprescindível. Se houver denúncias de que as crianças não estão sendo bem tratadas, vou tirar a criança dos pais e conscientizá-los", disse ela.

Parelheiros é uma região com muito verde - nem parece São Paulo. Uma feira cheia, evento típico de domingo, tinha produtos "baratinhos", uma das vantagens para quem mora longe do centro.

Nem sempre quem mora na periferia é pobre. As regiões periféricas são localizações geográficas distantes do centro da cidade. Embora a maior parte da população seja de baixa renda, existem contrastes de classes sociais. Muitas das casas são pequenas e sem acabamento, apenas com tijolo e "reboco", sem portão e em péssimas condições. Elas são vizinhas de casas enormes com ótimo acabamento, pintadas e com um carro zero na garagem. Muitas das casas em péssimas condições tinham antenas parabólicas.

Quase uma da tarde daquele domingo, visitamos a "Escola Estadual de 1º a 6º série Parque Tamari" - uma escola de lata, dentro de uma favela. Estava aberta e cheia. Na quadra, jovens jogavam vôlei e futebol. No interior da escola, crianças e adolescentes aprendiam origami e jogavam pingue-pongue, enquanto senhoras e moças tinham aulas de tricô e crochê. Era parte do projeto "Escola da Família", uma parceria entre o governo e a Unesco para desenvolver atividades em regiões carentes de cultura, esporte e lazer.

No cronograma fixado na entrada da escola, constavam ainda atividades como futsal, artes visuais, inglês, teatro, sexualidade, reforço escolar, dama, xadrez, pintura, alongamento e recreação.

Neusa, educadora e professora de português no ensino fundamental explicou que o projeto Escola da Família está estruturado em quatro pilares: qualificação para o trabalho, cultura, esporte e saúde. "Essa é a única diversão da comunidade, eles não têm casas de cultura ou bibliotecas, por exemplo", disse ela, também responsável por adequar as propostas dos estudantes à verba do projeto. As aulas de mais sucesso são tricô e crochê, pois as mães trazem os filhos e aproveitam para ficar.

Um ponto importante do projeto são os voluntários, a maioria universitários que recebem bolsa de estudos para desenvolver as atividades nas escolas públicas. Lenilde Marques cursa Artes Visuais na Faculdade Montessori e conseguiu bancar seu curso no primeiro ano. Neste ano, precisou recorrer à bolsa. "O projeto ajuda no pagamento da faculdade, mas tenho que bancar minha condução até aqui."

Além dos universitários, existem voluntários da comunidade "Temos uma voluntária desde 2003, que dá aulas de crochê sem ganhar condução, nem alimentação", explica Neusa. A coordenadora paga do próprio bolso uma cesta básica, que doa à voluntária.

A Parque Tamari foi uma de várias escolas de lata criadas pelo governo estadual provisoriamente para suprir a demanda de alunos fora das salas de aula. As condições físicas são precárias. "Aqui, no verão, aluno "pinga" e professora passa mal", contou Neusa enquanto mostrava as salas, em situação de abandono.

Questionada sobre a progressão continuada, disse: "No Brasil, é falida. Lá fora, os pais ajudam. Aqui, há uma inversão de valores, a mãe vai trabalhar e o pai fica no bar. As crianças chegam na escola sujas e com fome. Vejo crianças que não lêem nada e não são alfabetizadas, na 5º série. E os professores da 5º série não fizeram magistério, não estão preparados para alfabetizar. Tudo bem, diminuiu o número de evasão, mas e a qualidade?"

Neusa informou ainda que os professores que trabalham nas "escolas de latinha" ganham R$ 200,00 a menos desempenhando a mesma função, com a mesma carga horária.

Saindo da escola, ruas de terra, casas eternamente em construção, cachorros, gatos e galinhas nas ruas. Crianças brincam no único local de lazer fora da escola - um campo de terra vermelha, onde jogavam bolinhas de gude. Uma enorme ladeira dificultava o caminhar de uma deficiente física, assim como as mães que subiam carregando crianças de colo.

O sol estava intenso e já era 14h50. A fome bateu e paramos para o almoço.
Sanduiche e refrigerante numa padaria, pausa para um breve balanço da reportagem.

No primeiro momento achamos que não havia nada de novo em Parelheiros, uma região como muitas em São Paulo. Mas descobrimos que, bem próximo, está localizada a cratera de Vargem Grande, bairro que surgiu a partir de um meteoro que caiu há 40 milhões de anos. A ocupação da região começou na década de 80. Hoje, mais de 40 mil pessoas vivem ali, construindo aos poucos sua história.

Ali existem áreas de preservação ecológica e reservas indígenas, com duas aldeias, hoje organizadas, com associações culturais e algumas parcerias, apesar de passar por sérios problemas de exclusão. Lá vivem índios escritores, como Olívio Jekupé, que editou livros de poesisas e contos indígenas.

Mas tudo isso é material para outras possíveis pautas.
Assinatura Abraji