Oito em cada dez ataques online a jornalistas foram dirigidos a mulheres no primeiro turno
  • 20.10
  • 2026
  • 09:10
  • Rafaela Sinderski

Liberdade de expressão

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Oito em cada dez ataques online a jornalistas foram dirigidos a mulheres no primeiro turno

A violência contra mulheres jornalistas foi uma das características mais marcantes dos ataques à imprensa durante o primeiro turno da campanha eleitoral de 2026. Entre 13 e 26 de setembro, quase oito em cada dez agressões direcionadas a profissionais individualmente identificados no X e no Instagram tiveram mulheres como alvo. O resultado chama atenção não apenas pela proporção, mas também pela natureza das mensagens, que incluíram ofensas misóginas, ataques de caráter sexual e ameaças.

Os dados fazem parte do relatório Cobrir as eleições, enfrentar a violência, da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), da qual a Abraji faz parte, que acompanhou a hostilidade contra jornalistas e veículos de comunicação nas duas plataformas entre 16 de agosto e 4 de outubro, correspondente ao primeiro turno das eleições brasileiras.

A evolução dos ataques ao longo da campanha

Na terceira etapa do monitoramento, entre 13 e 26 de setembro, foram registrados 375 ataques contra mulheres jornalistas no X, o equivalente a 77,3% das agressões direcionadas a profissionais específicos. No Instagram, elas receberam 514 ataques, representando 79,1% dessa categoria.

A diferença é ainda mais significativa quando se observa quem foi atingido. No X, os ataques envolveram 24 mulheres e 30 homens. No Instagram, foram 32 mulheres e 30 homens. Ou seja, mesmo sem serem maioria expressiva entre os profissionais identificados, as jornalistas concentraram grande parte das mensagens ofensivas.

Esse desequilíbrio já aparecia no início da campanha. Entre 16 e 29 de agosto, as mulheres receberam 66,4% dos ataques individuais no X e 67% no Instagram. Na etapa seguinte, entre 30 de agosto e 12 de setembro, os percentuais foram de 52,8% e 59%, respectivamente.

Na última etapa do monitoramento, entre 27 de setembro e 4 de outubro, houve uma mudança importante. Os homens receberam 66,2% dos ataques direcionados a jornalistas identificáveis no X, resultado influenciado principalmente pelas 64 agressões contra Ricardo Noblat. No Instagram, as mulheres continuaram concentrando a maior parte das mensagens ofensivas dessa categoria, com 52,7% dos registros.

Ataques ultrapassam a crítica ao trabalho jornalístico

A análise dos episódios documentados mostra que as agressões frequentemente extrapolaram questionamentos sobre reportagens ou posicionamentos profissionais. Em diferentes momentos da campanha, jornalistas foram submetidas a tentativas de desqualificação pessoal, insultos relacionados ao gênero e mensagens que colocavam em questão sua segurança.

Um dos casos ocorreu com Natalia Viana, cofundadora e diretora-executiva da Agência Pública. Durante uma apuração, a jornalista procurou o influenciador Paulo Figueiredo para solicitar esclarecimentos e acabou exposta nas redes sociais. A repercussão desencadeou uma série de ataques misóginos, demonstrando como até mesmo o contato com fontes pode se tornar motivo para campanhas de hostilidade.

Juliana Dal Piva também enfrentou uma onda de agressões durante a repercussão de sua cobertura sobre áudios envolvendo Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro, no contexto do caso Banco Master. O monitoramento identificou 94 ataques contra a jornalista no X, incluindo ofensas sexuais e misóginas, acusações de divulgação de informações falsas e mensagens de incentivo à violência física.

Outro episódio envolveu Maria Cristina Fernandes, alvo de 226 ataques no X entre 13 e 26 de setembro. As agressões ocorreram após comentários da jornalista na GloboNews sobre a preocupação de católicos sobre uma suposya mobilização de parte dos evangélicos relacionada ao título de padroeira do Brasil atribuído a Nossa Senhora Aparecida. No Instagram, também foram identificadas mensagens que incentivavam agressões físicas e a morte da profissional.

Embora tenham origens diferentes, os episódios ilustram como a reação a uma atividade jornalística pode se transformar em ataques à pessoa que a realiza. No caso das mulheres, essa hostilidade também pode assumir características especificamente misóginas, com referências à sexualidade e outras formas de desqualificação relacionadas ao gênero.

Violência de gênero e os riscos para a cobertura eleitoral

Os resultados não significam que toda agressão contra uma mulher jornalista seja necessariamente motivada por gênero. O levantamento, contudo, evidencia que a violência contra essas profissionais apresenta manifestações que precisam ser consideradas para além das acusações recorrentes de parcialidade ou militância.

A concentração de centenas de mensagens contra uma mesma jornalista também revela uma dimensão importante do problema: o volume de ataques pode ser muito maior do que a quantidade de profissionais atingidos, intensificando a exposição individual e os riscos associados à atividade.

Durante as eleições, quando o jornalismo desempenha um papel fundamental na circulação de informações sobre candidatos, propostas e acontecimentos políticos, essas agressões podem afetar diretamente as condições de trabalho de quem investiga, entrevista e informa.

Ao reunir dados e episódios de diferentes momentos da campanha, o relatório da CDJor evidencia a importância de reconhecer as particularidades de gênero da violência contra a imprensa e seus impactos sobre a cobertura eleitoral. Para conhecer os demais resultados do monitoramento e aprofundar a análise dos ataques registrados durante o primeiro turno das eleições de 2026, acesse o relatório completo.

Assinatura Abraji