Livro-reportagem quebra o silêncio sobre a indigência em São Paulo
  • 13.11
  • 2019
  • 16:00
  • Natália Silva

Formação

Livro-reportagem quebra o silêncio sobre a indigência em São Paulo

Um corpo morto é encontrado na rua, recolhido pela polícia, autopsiado e fichado. Depois disso, permanece 72 horas em um dos 72 Institutos médico-legais espalhados pelo Estado de São Paulo. Se ninguém aparecer para identificar e reclamar o corpo, ele será enterrado como indigente. Esse procedimento seguido pelo Estado de São Paulo foi investigado no livro “Indigentes - o Estado que enterra sem avisar”, Trabalho de Conclusão de Curso de Maria Vitória Ramos e Victoria Hablich Gonçalves apresentado durante o 14º Congresso da Abraji.

Quando decidiram escrever sobre esse assunto, Maria e Victoria ficaram espantadas com o silêncio em torno do tema. Em suas pesquisas prévias sobre a indigência, encontraram pouco conteúdo — em geral, reportagens antigas e superficiais, exceto pelo trabalho publicado na Agência Pública. As estudantes procuram Ali Rocha, autora da grande reportagem, que as ajudou com conselhos e compartilhou a apuração que havia feito para o seu texto. “Essa é a principal dica que eu dou para quem está fazendo o TCC, especialmente investigativo”, comenta Maria. “Busque outros jornalistas que já investigaram o tema escolhido, foi o que mais nos ajudou nesse processo.” 

Além da falta de reportagens, elas também tiveram que lidar com a falta de informações do Estado. Maria Vitória, que é diretora da Fiquem Sabendo — uma agência de dados independente e especializada na Lei de Acesso à Informação —, conta que os pedidos feitos para esta apuração não renderam: “foram as piores respostas de LAI que eu recebi até hoje, depois de trabalhar um ano e meio com isso.” Alguns órgãos alegaram, repetidas vezes, ter perdido os dados que foram solicitados.

A apuração para o livro não ficou restrita ao campo da indigência. “Nós percebemos que o desaparecimento e a indigência são temas que andam lado a lado”, conta Victoria. Maria ressalta o termo “redesaparecimento”, adotado por Eliana Vendramini — coordenadora do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos do Ministério Público de São Paulo. Vendramini, que é uma das principais especialistas no tema, usa o termo para descrever a ação do Estado sobre cadáveres de pessoas que estavam desaparecidas e, apesar de terem sido encontradas pelo poder público, sofrem um “redesaparecimento” ao serem enterradas como indigentes.

Maria e Victoria, hoje formadas em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, contam que demoraram cerca de 10 meses na apuração do livro-reportagem. Mesmo assim, muito material ficou de fora pela falta de tempo. “Nós buscamos retomar essa investigação no futuro, porque nós já sabemos os caminhos para descobrir, por exemplo, quantas pessoas estão sendo enterradas como indigentes por ano pelo Estado de São Paulo.” Para seguir com o trabalho, seria necessário ter uma equipe estruturada, com tempo para dedicar ao tema e realizar o cruzamento de diversas bases de dados.

Além de indicar o contato com jornalistas mais experientes, Maria recomenda àqueles que desejam trabalhar com temas delicados no TCC que tenham cuidado com a proteção das fontes e que tentem viver experiências que ajudem a compreender a realidade a ser retratada. Durante a apuração, ela e a colega realizaram visitas em cemitérios localizados na Vila Formosa e em Perus, onde ficava a vala dos desaparecidos durante a ditadura militar. “É muito simbólica a experiência de estar lá em Perus. Você tá pisando naquela terra, a mesma que escondia os desaparecidos da ditadura hoje esconde os ignorados da democracia”, relata Maria. Victoria diz que todo o esforço feito durante a apuração foi recompensado quando o trabalho ficou pronto: “é muito gratificante fazer algo que pode ter um impacto positivo na sociedade e na garantia dos Direitos Humanos.”

Assinatura Abraji