Livro-reportagem mostra a relação de mulheres muçulmanas com o véu
  • 08.05
  • 2017
  • 14:57
  • Mariana Gonçalves

Formação

Livro-reportagem mostra a relação de mulheres muçulmanas com o véu

Apresentado neste ano em mesa do 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, o livro “Entre véus e vozes”, resultado de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) das jornalistas Ana Carolina Lazarini, Luiza Donatelli e Mariana Dib, conta a história de seis muçulmanas que, motivadas pela fé, aderiram ao uso do véu. 

Elas compartilharam com a reportagem suas visões sobre o Islã e a relação com o símbolo que vestem, destacando aspectos de suas vidas no Brasil. O trabalho foi apresentado no fim de 2016 na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

Encontrar essas mulheres “foi mais fácil do que a gente imaginava”, diz Mariana Dib, uma das autoras do TCC. Após chegarem à primeira fonte, Dunya Abdouni, por indicação de uma amiga, as estudantes encontraram Mag Halat e Luciana de Moraes, outras personagens. Duas mulheres, Gisele Marie e Sarah Ghuraba, já eram conhecidas na mídia. E a última, Melek Özorpak, conheceu as garotas em palestra na faculdade. “Foi uma indicando a outra”, Dib conta. 

O livro também teve entrevistas com o sheik Rodrigo Rodrigues, a militante feminista Tica Moreno e a antropóloga Francirosy Barbosa, da Universidade de São Paulo (USP). Seu curso “Islã e feminismo”, ao qual as estudantes assistiram, foi “a base de todo o trabalho”, afirma Dib. “A gente escolheu esse tema [do véu] para o livro porque tínhamos uma curiosidade pessoal, mas queríamos, desde o início, falar sobre mulheres.” 

As visões das personagens em relação a gênero, feminismo e religião são pontos recorrentes na reportagem. “A gente foi muito aberta”, destaca Dib. Segundo ela, a equipe queria compreender por que as entrevistadas haviam escolhido usar o véu, que sentidos ele carregava e como, enquanto mulheres, as muçulmanas se enxergavam e se posicionavam no mundo. Há um capítulo inteiro dedicado ao tema, mas os tópicos são retomados ao longo do trabalho.

Outro objetivo do livro foi desmistificar o islamismo e a cultura árabe, na medida em que, segundo Dib, a religião ainda é estigmatizada e não muito difundida no Brasil. “Aprendemos muito reportando o que as entrevistadas diziam”, conta. “Foi um trabalho de empatia.”

As estudantes começaram a pesquisar desde 2015, quando decidiram o formato do trabalho, levantaram fontes e entregaram um pré-projeto para a faculdade. No ano seguinte, fizeram a apuração e a redação da reportagem. Para Dib, o mais importante nesse momento é que o estudante escolha um tema “de que realmente gosta”, já que vai revisitá-lo durante um ano ou mais. “Se não for assim, o TCC vai se tornar algo maçante.”

No caso delas, “tudo que a gente descobria de novo, cada entrevista, era muito interessante”, conta. Sempre que saíam de um encontro, as meninas escreviam um texto livre, que não entraria na versão final, sobre suas percepções da conversa. Isso porque, apesar de o trabalho ser jornalístico, sua intenção era escrevê-lo com um tom literário. Deixavam registradas as cenas que chamavam a atenção e características marcantes das personagens, para não esquecer depois. E decupavam todo o material antes de partir para a próxima entrevista.

Para Dib, a maior dificuldade nesse processo foi conjugar os estilos de três jornalistas diferentes num livro só. “Demorou, e a gente contornou esse problema errando, experimentando, tentando achar o tom”, diz. Contaram com a ajuda de sua orientadora, a professora Bianca Santana, e leram bastante para encontrar referências. Uma das inspirações foi a jornalista Eliane Brum, por exemplo.

“O TCC é o maior desafio do curso, mas também é muito gratificante”, continua Dib. “Ele está nos levando a lugares que a gente não esperava.” Um exemplo, diz, foi o próprio Congresso da Abraji, onde se surpreendeu com a recepção dos participantes. “A sala estava quase cheia, e foi um momento de troca de conhecimento muito grande. Conseguimos dar visibilidade ao tema.”

Atualmente, Dib conta que revisou o texto e está refazendo a diagramação do livro, pois tem intenção de publicá-lo. “Ainda estamos vendo qual é a melhor forma, se no impresso ou na internet”, conta. “Queremos divulgá-lo e fazê-lo chegar ao maior número de pessoas.”

Assinatura Abraji