Levantamento revela que apenas 15,8% dos veículos locais consideram haver liberdade de imprensa plena no Brasil
  • 11.06
  • 2026
  • 14:15
  • Samara Meneses

Liberdade de expressão

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Levantamento revela que apenas 15,8% dos veículos locais consideram haver liberdade de imprensa plena no Brasil

Neste ano, o Brasil surpreendeu ao subir para a 52ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Em 2025, o país ocupava a 63ª posição. No entanto, um novo levantamento, também realizado com apoio da RSF, mostra que a preocupação com a livre atuação do jornalismo no país continua necessária.

Lançado neste ano, a investigação “Jornalismo local sob pressão do poder paralelo", assinada pelos jornalistas Gabi Coelho e Igor Soares, com apoio da RSF, apresenta um panorama nacional sobre como agentes políticos, empresários, forças de segurança, facções criminosas e outros atores podem silenciar o jornalismo local no Brasil. A pesquisa ouviu 38 veículos de comunicação das cinco regiões do país entre fevereiro e maio de 2026. Apenas 15,8% dos respondentes consideraram haver liberdade de imprensa plena em suas localidades. O levantamento completo pode ser acessado neste link.

Embora o país tenha avançado no ranking global da RSF, a percepção dos profissionais que atuam em contextos locais revela desafios para o exercício da atividade jornalística. Violência policial, corrupção política, uso do dinheiro público e disputas territoriais estão entre as pautas mais evitadas por veículos por medo de represálias. Cerca de 60,5% dos entrevistados afirmaram que o veículo já deixou de publicar alguma pauta por receio de sofrer retaliações.

Além disso, 89% dos respondentes afirmaram sofrer algum tipo de hostilidade em decorrência do trabalho jornalístico. As formas mais frequentes foram ataques em redes sociais e intimidação presencial, mencionados por 47,4% dos participantes. Também foram relatadas ameaças diretas e indiretas e pressões de autoridades públicas. Para 63,2% dos respondentes, essas hostilidades ocorrem de forma ocasional; para 13,2%, são recorrentes.

Para contextualizar os resultados, a pesquisa também recorreu a dados dos relatórios realizados pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) sobre ataques e assédio contra jornalistas no Brasil. Segundo os relatórios da entidade, agentes públicos e políticos figuram de forma recorrente entre os principais responsáveis por agressões à imprensa, especialmente em coberturas relacionadas à política.
 
Os registros também apontam a predominância, entre os autores de ações classificadas como assédio judicial, de figuras com capacidade estruturada de litígio, como agentes políticos, empresários, membros do Judiciário e associações. No levantamento mais recente do Monitor de Assédio Judicial da Abraji, 48% dos casos estavam associados ao poder associativo, 25% ao poder político, 15,9% ao poder econômico e 11,1% ao poder jurídico.

Mesmo diante desses episódios, 76,3% dos respondentes afirmaram nunca ter feito uma denúncia formal após sofrer ameaças ou pressões relacionadas ao exercício da profissão. Entre os principais motivos para não buscar as autoridades, estão o medo de represálias e a falta de confiança nas instituições responsáveis pela apuração dos casos. Esta última razão foi apontada por 42,1% dos participantes que optaram por não denunciar.

Nesse contexto, muitos profissionais recorrem a redes de apoio e proteção fora dos canais institucionais. Entre os respondentes do estudo, 44,7% afirmaram ter buscado apoio de entidades como Abraji, Artigo 19, RSF, Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) e Rede de Proteção a Jornalistas.

Protocolos de segurança

O estudo também investigou a adoção de protocolos de segurança nas redações. Entre os respondentes, 73,7% afirmaram adotar algum tipo de medida de proteção, enquanto 26,3% disseram não possuir nenhum protocolo de segurança.

Diante desse cenário, organizações como a Abraji, a Artigo 19 e a RSF disponibilizam materiais com orientações e recomendações para fortalecer a segurança física, digital e jurídica de jornalistas e veículos de comunicação. Alguns desses materiais podem ser consultados nos links abaixo: 

Além disso, a Abraji oferece o Programa de Proteção Legal para Jornalistas. Financiada pela organização internacional Media Defence e realizada em parceria com o Instituto Tornavoz, a iniciativa oferece assistência jurídica gratuita a profissionais que sofrem constrangimentos por meio de ações judiciais ou que buscam responsabilizar civilmente seus agressores.

A prioridade é atender jornalistas que atuam fora dos grandes centros urbanos e que não contam com apoio financeiro dos veículos para os quais trabalham. Mais informações sobre os critérios de participação podem ser consultadas neste documento.

Assinatura Abraji