Leia a íntegra do discurso de Zuenir Ventura durante o 13º Congresso: "uma das maiores homenagens de minha carreira profissional"
  • 30.06
  • 2018
  • 11:33
  • Abraji

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Leia a íntegra do discurso de Zuenir Ventura durante o 13º Congresso: "uma das maiores homenagens de minha carreira profissional"

Durante a cerimônia em sua homenagem realizada no primeiro dia do 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, Zuenir Ventura fez um discurso emocionado: "uma das maiores homenagens de minha carreira profissional". Leia a íntegra:

Esta homenagem vem para mim numa idade, ou pós-idade, em que, em vez de receber, costuma-se ser prêmio, quando se merece, claro, o que não é o caso. E vem por concessão de uma instituição cuja importância só tem aumentado nesses 15 anos de existência. 

A Abraji aponta o que me parece ser o caminho correto para a sobrevivência institucional da imprensa, indicando o antídoto contra os ataques a que ela está sujeita - de um lado pela ação das redes sociais; de outro, por meio das fake news, essa praga tão nociva hoje quanto a censura nos tempos da ditadura.

As fake news são uma contradição em termos. Se são fake, não são news, e sim um novo nome para a velha prática dos boatos, dispondo agora de um instrumento com poder de propagação como nunca houve: a internet. 

Elas são uma das maiores preocupações destes nossos tempos pré-eleitorais. O ministro Luiz Fux, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, já declarou que, “se ficar comprovado que as notícias falsas beneficiaram um candidato, a ponto de garantir sua vitória, as eleições do Brasil podem chegar ao extremo de ser anuladas”.

Segundo Fux, “a legislação prevê até a cassação de candidatos”.

A imprensa não tem, como a Justiça, mecanismo punitivo, mas às vezes consegue desmoralizar a mentira, como fez com a onda dos sórdidos ataques à vereadora Marielle Franco, que fora executada com o motorista Anderson Gomes. A infame campanha de versões falsas e difamatórias foi comandada por uma desembargadora e por um deputado federal, os quais, diante dos desmentidos de serviços de checagem de vários jornais, voltaram atrás. 

A juíza postou um “mea culpa” no seu Facebook admitindo ter repassado, “de forma precipitada”, falsidades contra a vereadora. E o deputado fez o mesmo. 

Não se deve, porém, subestimar a gravidade do fenômeno. As fake news já constituem uma indústria. Segundo a revista Época, os dez maiores “sites de boatos” do país já contam com mais de 9 milhões de visitantes por mês. 

O que fazer?

No ano passado, aqui mesmo no 12º Congresso, o editor-chefe do Washington Post, Martin Baron, deu a resposta, mostrando que o jornalismo investigativo é a alma do seu jornal, assim como deve ser da própria imprensa. A sua redação dobrara o número de repórteres investigativos, passando de 8 para 16. 

Baron foi o chefe da equipe do Boston Globe que investigou em 2002 os abusos sexuais cometidos por importantes clérigos da igreja católica. A reportagem deu origem a “Spotlight - Segredos Revelados”, que ganhou o Oscar de melhor filme em 2016. “Nosso trabalho”, ele disse aqui, “é fazer as instituições poderosas, como o governo, prestarem contas à sociedade”.

Não custa lembrar que em 1972 dois repórteres do Washingtoo Post foram os autores do caso Watergate, cujas investigações levaram à renúncia do então presidente Richard Nixon, no que talvez tenha sido o internacionalmente mais famoso trabalho do jornalismo investigativo.

Já ouvi dizer que jornalismo é uma técnica e, por isso, não tem ética. Não concordo com essa tese pós-moderna, acho que não só tem ética, como até estética. Pode-se alegar que, como veículo, o jornalismo é uma ferramenta e ferramenta não carrega ethos. O problema, porém, é que não existe ferramenta sem a mão do homem e não existe homem sem ideologia, no sentido mais amplo e nobre do termo, ou seja, como sistema de pensamento, ideias e opinião. 

Como acontece desde Adão, nenhum instrumento passa pela mão do homem sem ser contaminado pela ideologia. “A câmera ou é de direita ou de esquerda”, diz Godard, querendo mostrar que mesmo a máquina tem opinião, posto que atrás dela há sempre um operador de carne e osso. Ele tem razão: qualquer editor descobre, ao escolher uma foto, que um ângulo pode equivaler a um editorial. Também a foto, ou é contra ou é a favor. Se a imagem não consegue ser neutra, imagine a palavra. A objetividade é um mito, mas isso não nos impede de persegui-la. 

Neste tempos de crise, depressão social, polarização e intolerância, tende-se a associar ao veículo o que de ruim é veiculado. Atacado pelo que se pode chamar de síndrome da má notícia, costuma-se ter com a imprensa uma relação parecida com a que certos reis mantinham com os emissários da má notícia. Mandavam matá-los depois de receberem a notícia. Muitos têm vontade de fazer o mesmo com os jornalistas: matá-los simbolicamente - depois, claro, de consumir vorazmente a má notícia. 

Mas isso não explica tudo nessa relação de amor e ódio. Também temos culpa no cartório. Por natureza, somos um pouco patologistas sociais. Não nos interessamos pela normalidade. Temos uma certa preferência pelo mórbido, o teratológico, o monstruoso, o insólito, as catástrofes, os conflitos e as paixões assassinas. 

Pode-se dizer, e muitos dizem, que não fazemos nada do que o leitor não queira - sofremos o controle externo do mercado. Pela lógica do resultado e pela ideologia da eficácia, o consumo seria a medida de todas as coisas. Mas será mesmo assim? Seria o caso de entregar também essa questão para o mercado?

Parece que começamos a achar que não. Mesmo numa sociedade controlada por suas leis, pela lógica do consumo, movida pela competição e o lucro, mesmo numa sociedade de espetáculo, da ditadura do marketing - eu diria que por isso mesmo - o jornalismo tem que ter uma autocrítica, uma ética. Ele, que é tão rigoroso com as outras instituições, fiscalizando, cobrando, patrulhando, deve ser consigo mesmo. 

Mas, enfim, não vim aqui para ensinar o padre nosso ao vigário. Vocês sabem melhor do que eu tudo o que foi dito. Estou aqui para agradecer a honra de ter sido contemplado com uma das maiores homenagens de minha carreira profissional. 

Só por este dia já terá valido a pena não ter desistido antes mesmo de começá-la, nos anos 50, quando li num manual o que era notícia: “cachorro mordendo o homem não é notícia; notícia é o homem mordendo o cachorro”.

Achei que não ia conseguir passar a vida atrás de homem mordendo cachorro. 

Por isso, digo aos jovens: não desistam nunca. 

Zuenir Ventura


Assinatura Abraji