
- 23.10
- 2026
- 10:39
- Samara Meneses
Liberdade de expressão
Jornalistas destacam o papel do jornalismo e os riscos da profissão em campanha da Abraji
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) lançou uma campanha institucional para sensibilizar a sociedade sobre a importância da imprensa livre e os desafios crescentes enfrentados por repórteres no país. A ação traz depoimentos de profissionais com formações e trajetórias diversas que relatam episódios de intimidação, processos abusivos e ameaças. Intitulada "Antes do click, além do like. Defenda o jornalismo", a campanha foi realizada em parceria com a Babushka.
Entre os relatos destacados está o de Elvira Lobato, ex-repórter da Folha de S.Paulo, que em 2008 tornou-se símbolo das discussões sobre assédio judicial no Brasil. Após publicar uma reportagem investigativa sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, a jornalista enfrentou 111 processos judiciais movidos simultaneamente por fiéis e pastores em diversas regiões do país, com audiências marcadas para os mesmos dias e horários com o objetivo de inviabilizar sua defesa. O caso evidenciou a tática de usar o sistema judiciário para sufocar financeiramente e silenciar veículos e profissionais de imprensa.
A utilização do Judiciário para impor barreiras à informação também marca o depoimento de Thiago Domenici, diretor da Agência Pública. Prestes a completar 15 anos de atuação voltada ao jornalismo investigativo, o veículo acumula episódios de retaliação e censura prévia, incluindo uma reportagem sobre o deputado federal Arthur Lira, mantida sob restrição judicial há dois anos. Paralelamente, o repórter Thalys Alcântara, do Intercept Brasil, ressalta que o assédio jurídico se consolidou como um dos maiores obstáculos da rotina investigativa. Ele ressalta que os congressos, treinamentos e consultorias oferecidos pela Abraji auxiliam na formação e no acesso a técnicas importantes, para que os profissionais de imprensa não se sintam isolados.
Além do assédio judicial, a violência direcionada e as tentativas de descredibilização pública afetam diretamente repórteres em campo e nas redes digitais. O editor do veículo Alma Preta, Pedro Borges, enfrentou ataques públicos ao investigar a gestão da Fundação Cultural Palmares durante o governo Jair Bolsonaro e, posteriormente, sofreu invasões em suas redes sociais e ofensas racistas após participar de sabatinas eleitorais. A violência de gênero também foi enfrentada por Juliana Dal Piva, colunista do ICL Notícias e vice-presidente da Abraji, que passou a ser alvo de campanhas sistemáticas de difamação, misoginia, assédio judicial e ameaças físicas e virtuais em decorrência de investigações sobre a família Bolsonaro.
O jornalista freelancer Rubens Valente também detalha suas experiências. Alvo de ação judicial movida pelo ministro do STF Gilmar Mendes — que resultou em condenação de indenização e na exigência de alterações substanciais que inviabilizariam a publicação de seu livro Operação Banqueiro —, teve seu caso levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (CIDH/OEA). A denúncia foi acolhida pela comissão internacional com o apoio da assistência jurídica da Abraji.
Ao reunir esses depoimentos, a campanha reafirma que proteger o trabalho dos jornalistas e garantir meios para que continuem investigando é um compromisso essencial para a preservação da própria democracia.
Siga a campanha nos canais oficiais da Abraji e aproveite para descobrir as trajetórias de importantes figuras do jornalismo brasileiro. Clique neste link para fazer uma doação à Abraji e descubra também os benefícios de se tornar associado aqui.