• 05.12
  • 2003
  • 18:04
  • Abraji

Liberdade de expressão

Fernando Rodrigues apresenta a Abraji em conferência Global de Jornalismo Investigativo

Bom dia.

Meu nome é Fernando Rodrigues. Sou um jornalista do Brasil, na América Latina, e é uma honra e um grande prazer estar aqui. Gostaria de agradecer aos organizadores da conferência por esse convite que muito me agradou, bem como às organizações que represento, basicamente o jornal Folha de S.Paulo e a recém-formada Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Para me manter dentro do programa, rabisquei algumas palavras e espero que possa ser breve. Pretendo falar sobre um assunto sério que afeta a nós todos: os ataques contra jornalistas e as mortes de jornalistas no exercício da profissão, ao redor do mundo.

Primeiro, gostaria de ler alguns números.

Em 2002:

- 25 jornalistas foram mortos (contra 31 em 2001)

- pelo menos 692 foram presos (contra 489 em 2001)

- pelo menos 1.420 jornalistas foram fisicamente atacados ou ameaçados (716 em 2001)

- pelo menos 389 meios de comunicação foram censurados (378 em 2001)

Em 1º de janeiro de 2003, 118 jornalistas estavam na prisão no mundo inteiro.

Esses dados são da Repórteres Sem Fronteiras (uma organização que defende a liberdade de imprensa). Apesar de as 25 mortes do ano passado representarem um decréscimo se comparadas às 31 de 2001, todas as outras estatísticas pioraram.

O número de prisões, ataques físicos e ameaças contra jornalistas saltou em 2002, ultrapassando os dados de 2001.

Os dados de 2002 incluem, entre outros, Daniel Pearl, correspondente do Wall Street Journal no sul da Ásia. Ele foi seqüestrado e morto por seus captores, em Karachi.

Neste ano, provavelmente, os dados tendem a ser piores. Desnecessário dizer que as mortes de colegas nossos cobrindo a Guerra do Golfo farão essas estatísticas aterradoras aumentarem.

Venho de um país onde a democracia foi recentemente restaurada, há menos de duas décadas. Mesmo assim, ainda temos jornalistas sendo mortos durante o trabalho. No ano passado, dois jornalistas foram mortos no Brasil.

O caso mais conhecido foi o do repórter e produtor de TV Tim Lopes. Lopes, um repórter investigativo premiado que trabalhava para a Rede Globo, foi brutalmente assassinado por traficantes de drogas.

Ele desapareceu quando cobria uma pauta nos subúrbios do Rio de Janeiro, numa favela. Levou vários dias até que a polícia do Rio encontrasse partes do corpo de Lopes, incinerado num cemitério clandestino.

Creio que este triste exemplo do repórter brasileiro é muito emblemático. A democracia, infelizmente não é por si suficiente para intimidar traficantes de drogas e o crime organizado em geral, quando eles decidem ir atrás de jornalistas.

A Colômbia, por exemplo, pode ser considerada um país democrático. Tem eleições regulares e livres. Mesmo assim, a Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) exigiu do governo colombiano em abril que desse proteção imediata a 16 jornalistas que enfrentam ameaças tanto de grupos de guerrilheiros quanto de paramilitares.

Tristemente, dois jornalistas foram assassinados na Colômbia nesta semana: Guillermo Bravo Vega e Jaime Regifo Revero. Até agora, desde o começo deste ano, seis jornalistas foram assassinados na Colômbia.

Nos EUA houve um caso triste ainda em 1976, quando o repórter Don Bolles morreu numa explosão de carro em Phoenix, Arizona. Houve reação imediata de toda a imprensa americana, na época. Eles se sentiram compelidos a mostrar ao crime organizado que a morte de um jornalista a trabalho não poderia ser considerada apenas mais um assassinato.

A reação resultou numa equipe de cerca de 40 repórteres de vários jornais e outros meios, que foi mandada a Phoenix. Por quase três meses, eles investigaram o crime organizado e as acusações de corrupções que Don Bolles investigava e que se tornaram o motivo de seu assassinato.

Naquele tempo, em 1976, os jornalistas queriam dar um claro sinal à máfia local do Arizona: não fazia sentido matar um jornalista investigativo, porque muitos outros apareceriam rápido para continuar o trabalho.

No final, duas pessoas foram condenadas e mandadas para a prisão pela morte de Bolles.

Eu não estava lá, mas soube que a iniciativa do Arizona ajudou a consolidar a IRE (Investigative Reporters & Editors), que ainda era um pequeno grupo na época e se tornou uma entidade nacional.

Esse é o argumento que quero demonstrar. Estamos nos reunindo aqui em Copenhagen para discutir e debater o jornalismo investigativo. Vivemos hoje num período de globalização, de idéias deslocadas por toda parte, de ameaças de terrorismo. Tudo isso torna nosso trabalho mais difícil. É de suma importância que dirijamos nossos esforços para consolidar mais e mais organizações ao redor do mundo como, por exemplo, a Associação Dinamarquesa de Jornalismo Investigativo, que organiza esta conferência.

Quanto mais melhorarmos nossas técnicas e habilidades investigativas, melhor estaremos preparados para combater o cenário lúgubre que se apresenta em certas áreas do globo. No ano passado, e no ano anterior, mais de um meio de comunicação por dia foi atacado ou teve imposta alguma forma de censura.

A única resposta que podemos dar a isso é investigar mais e melhor. O tempo todo. É para isso que viemos aqui.

Grato.

Copenhague, 1º de maio de 2003

Fonte: Abraji

Assinatura Abraji