
- 21.09
- 2026
- 15:00
- Samara Meneses
Liberdade de expressão
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Depressão atinge 50,2% dos jornalistas no Brasil, revela relatório da Fundacentro e Fenaj
“O jornalismo é vital para a manutenção de uma sociedade democrática”, afirma o novo relatório da Fundacentro, em parceria com a Fenaj, sobre as condições de trabalho dos profissionais de imprensa no país. O estudo "Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil" reúne respostas de 257 profissionais que descrevem suas experiências no mercado.
Os resultados acendem um alerta. Metade dos entrevistados (50,2%) relataram sofrer de depressão, com proporções significativas nos níveis severo e extremamente severo. Além disso, 47,9% reportaram sintomas de insônia. Também foi observada alta prevalência de estresse (47,8%) e ansiedade (35,8%).
O levantamento aponta ocorrências de assédio moral — 37% pelo critério de Leymann e 26,1% por Mikkelsen & Einarsen — e cyberbullying (30,4%). Cerca de 33% dos participantes consideram ter baixa capacidade para o trabalho, enquanto 28% estão em situação de alto desgaste. O baixo apoio social é percebido por 61,1% da amostra, e o uso de risco nocivo ou de dependência de álcool foi identificado em 21,5% dos entrevistados.

Imagem do relatório
Para a presidente da Fenaj, Samira de Castro, as condições de trabalho dos jornalistas se deterioraram significativamente nas últimas décadas. “Isso não se resume à questão salarial. Estamos falando de jornadas extensas, pressão por produtividade, redução das equipes, acúmulo de funções, precarização dos vínculos e uma cobrança permanente para produzir cada vez mais, em menos tempo e para diferentes plataformas”, avalia.
A rotina da profissão envolve exposição constante a situações de estresse, coberturas de temas sensíveis, descredibilização e ataques físicos ou digitais. Segundo levantamento da Abraji, 36,3% dos alertas registrados em 2025 envolveram agressões verbais, escritas ou virtuais — somando 204 registros de ataques em um ano sem eleições, mas de intensa polarização política.
Diante deste cenário, Samira alerta que muitos profissionais sentem receio de pedir ajuda. “Ainda existe muito tabu. Em muitas redações, admitir que está sobrecarregado ou enfrentando um problema de saúde mental pode ser interpretado como falta de capacidade ou comprometimento. Isso é extremamente preocupante”, afirma.
Para ela, os dados demonstram que a discussão sobre saúde dentro do jornalismo não pode ser tratada como uma responsabilidade individual, mas sim coletiva. “Precisamos mudar essa cultura. O jornalista não pode ter medo de dizer que está adoecendo. Não podemos transformar o trabalhador no responsável por um problema que é produzido pelas condições em que ele trabalha. Esse debate precisa sair do campo individual e entrar na agenda das empresas, dos sindicatos e do poder público”, defende Samira.
Você precisa se mostrar forte o tempo todo?
Em anos eleitorais, a cobertura política é uma das principais fontes de violência cotidiana contra a imprensa. De acordo com o relatório da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), da qual a Abraji faz parte, durante o período eleitoral de 2024 foram identificados mais de 57 mil ataques digitais contra a imprensa nas redes sociais. Entre os dias 16 e 29 de agosto deste ano, o estudo já registrou 2.630 ataques diretos a 91 veículos de comunicação e 46 jornalistas. Na quinzena seguinte (30 de agosto a 12 de setembro), essa violência cresceu 67,3%, chegando a 4,4 mil ataques.
Alinhado aos 30,4% de jornalistas que relataram ter sofrido cyberbullying no relatório da Fenaj, fica evidente a crescente hostilidade contra a imprensa e seus impactos diretos no ânimo e na saúde psicológica dos profissionais.
A Abraji orienta, em seus relatórios e em seu guia sobre prevenção de ataques contra a liberdade de imprensa, que redações e empresas de comunicação assumam responsabilidade direta na proteção de suas equipes, adotando protocolos de segurança e oferecendo treinamento para coberturas de risco.
Para Samira de Castro, combater a sobrecarga mental dos jornalistas é também zelar pela qualidade da profissão. “Um profissional submetido permanentemente à exaustão, à pressão e à precarização terá mais dificuldade de exercer plenamente sua função social. Defender condições dignas de trabalho, portanto, é também defender um jornalismo mais forte, ético, independente e comprometido com a sociedade”, afirma.