• 01.07
  • 2005
  • 12:05
  • MarceloSoares

Cidade Tiradentes, um bairro a ser explorado

FERNANDA APARECIDA DE LIMA - REPÓRTER DO FUTURO

Em visita à Cidade Tiradentes, zona leste da capital paulistana, observei e constatei o que foi dito pelo ex-vereador e professor da FAU-USP, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Nabil Bonduki, que considera o bairro “uma cidade dormitório, um depósito de gente”.

Acredito que tal fato se deve à pouca quantidade de empregos ofertados naquela região, o que obriga a população a deslocar-se ao centro da cidade, fato que recai em outros dois problemas pelos quais a população está se acostumando a conviver, mas não deveria. Um deles diz respeito ao transporte público, cujo tempo de deslocamento da Cidade Tiradentes ao centro pode chegar a ser percorrido em até três horas. O outro problema refere-se às enchentes do córrego Aricanduva que margeia a avenida de mesmo nome, provocando o caos na região em dias de chuva intensa.

Na minha primeira visita ao bairro pude verificar que, em quase duas horas de caminhada, não vi nenhuma escola, nem estadual, nem municipal, de ensino médio. Considerando que gosto de caminhar e não o faço de modo lento, creio ter percorrido uma área considerável, incluindo a região do terminal de ônibus, que acredito seja o centro do lugar. Tal fato me indignou e só sosseguei quando uma amiga veio em meu socorro, fornecendo dados que contam 18 escolas de ensino médio na região. Mas como sofro da doença de São Tomé...

O que me preocupa é que se por lá não vi escolas de ensino médio, que dirá universidades. Se o cidadão quer estudar na Universidade de São Paulo, na zona oeste da cidade, ou dedica todo o seu tempo entre o deslocamento e o período de aulas e, por isso, não trabalha, ou ele vai engrossar o coro daquela parcela da população que não tem acesso à educação por na possuir condições financeiras para tal. E, em razão dessa falta de dinheiro, o mesmo se vê impedido de estudar numa instituição privada, cujos campi das mais variadas universidades encontram-se em bom número na zona leste da cidade.

Levando-se em consideração o que diz o Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo, cujo papel é ordenar o desenvolvimento da cidade, reflito como ele vem sendo aplicado de modo a desordenar a vida do morador do bairro ao qual venho me referindo no decorrer deste texto. Embora seja considerada uma região violenta, logo me surpreendi ao estabelecer um contato mais próximo com aqueles que, admito o meu preconceito, pensei terem “sangue nos olhos”, como se diz na gíria, em referência àqueles que têm ódio dentro de si, de modo a externá-lo através do olhar.

Não foi bem o que os meus olhos, sem sangue, viram naquele domingo de sol, forte calor e céu azul. Mas do que o contato com a natureza, cuja presença se faz notar contrastando os incontáveis conjuntos habitacionais cercados de um lindo cinturão verde – que me fez lembrar da Serra da Cantareira -, pude ver naquele povo um comportamento típico daqueles que querem mais se divertir e carregar as baterias para a labuta da semana, seja jogando bola, empinando pipa ou praticando um esporte semelhante à bocha. Sem contar as cervejadas e churrascadas que eram promovidas nos botecos, o que me despertava até uma vontade.

A peregrinação continuava e outras imagens me chamavam a atenção. Tive a impressão de que todos deveriam andar pelo asfalto, a rua mesmo, que estava, na maior parte do percurso que fiz, em melhores condições de conservação do que as calçadas, muitas delas completamente destruídas, o que prejudicaria e em muito o trânsito de pessoas idosas, só para citar um exemplo. Vi muitos espaços vazios, de um tamanho que seria ideal para a construção de espaços culturais ou mesmo de ginásios poli-esportivos, já que as quadras utilizadas pertencem à única escola estadual que vi no meu caminho e o futebol praticado fica prezo às áreas sem grama, com o barro vermelho e a terra batida.Várzea, para a imaginação do leitor. Os locais não contam com a quantidade de shoppings centers de que dispõem o morador da região dos jardins. Não vi nenhum centro de compras, porém o comércio existe em pequenos espaços, lojinhas que têm de tudo um pouco, desde vassouras à sorvetes de massa.

Triste foi ver uma única biblioteca, e comunitária. Ou seja, isso me remete à questão das escolas de ensino médio que me parecem, ainda, um mistério. Onde está o poder público que não leva arte, cultura e educação para esse povo? Estranhamente, chego a pensar que felizes mesmo são os animais que moram na região. Sim, os animais que vi, como cabras, vacas e cavalos. Esses, sim, fazem pleno uso do solo, conforme reza o tal do Plano Diretor. Usam o solo como pastagens, como local para o seu repouso.

Um cavalo, de posse do seu direito, chegou a interromper o trânsito pois estava comendo o mato que crescia junto à calçada – acredito que ele até estava fazendo um favor aos pedestres -, obrigando os passantes a andarem pela rua, isto é, se o quadrúpede não estivesse parado lá, impedindo a passagem. E o Plano Diretor tem como função adequar as condições de circulação... mas acho que o animal não sabia.

O dito Plano também tem a incumbência de criar novos espaços públicos e melhorar a paisagem. Pois bem, vamos esperar pelas bibliotecas, clubes, ginásios de esporte, campos de futebol – gramados -, shoppings centers, etc. E, sobretudo, vamos cobrar para que o Plano seja posto em prática e que alternativas de desenvolvimento para a Cidade Tiradentes, como a instalação de fábricas e indústrias, e mesmo os centros de compra com as suas mais variadas lojas, possam vir de empresários e de pessoas de boa vontade. O mártir que batiza o bairro – que de tão grandioso parece uma cidade – irá agradecer.
Assinatura Abraji