• 14.07
  • 2005
  • 16:03
  • MarceloSoares

Armênia, o bairro das ilusões

LEONARDO BERSI e JOÃO BATISTA JR. - REPÓRTER DO FUTURO

Praças descuidadas e abandonadas. Ruas pacatas, sujas e mal iluminadas. Pouco comércio, somente alguns bares, oficinas e armazéns com poucos clientes. Muitos galpões e casarões com placas de “aluga-se”. Povoado por muitos senhores, mulheres, crianças e cachorros pelas calçadas.

A sensação é que o bairro estacionou no tempo, não acompanhando a evolução urbanística que ocorreu nas três últimas décadas na cidade de São Paulo. Embora à primeira vista seja possível ter a impressão de que o bucolismo pode um ser sinal de qualidade de vida e indícios de tradições protegidas contra os modismos da vida moderna, tudo não passa de evidências de um bairro em franco processo de decadência.

Limitado pelas caóticas avenidas Santos Dumont e Estado e pelos fétidos rios Tamanduateí e Tietê, o bairro Armênia carrega uma nação em seu nome devido à intensa imigração do povo vindo do país homônimo. A partir de 1926, fugidos em decorrência do genocídio turco, vieram ao Brasil sem nenhum suporte. Alguns chegaram a comer capim nos primeiros dias em terra tropical. Os primeiros armênios desembarcaram na cidade de São Paulo sem ter onde ficar e trabalhar.

Muitos se instalaram na região central da cidade pelo fato de haver consumidores para os produtos que viriam a produzir. Queijos e qualhadas eram feitos no interior de suas casas para serem vendidos na região da rua 25 de Março. Posteriormente, desenvolveram a manufatura de calçados, setor em que até hoje dominam parcela do mercado – lojas como Besni, Clóvis e Sarah Chofakian são propriedades de descendentes de armênios.

A população de seis milhões de habitantes, que após 1915 – ano do primeiro massacre turco motivado pela vontade de expandir o islamismo – viu seu número encolher em 1,5 milhão de pessoas, se encontrou diante da necessidade de fugir para sobreviver. Rússia, Estados Unidos, Canadá, Líbano, França, Uruguai, Argentina e Brasil foram alguns dos países que receberam armênios refugiados. O consulado armênio estima que exista cerca de 100 mil armênios morando no país. Desses, 70 mil na cidade de São Paulo.

“Meus pais chegaram aqui em 1927, sem conhecer língua, costumes e cultura. Nada. Foi difícil para o pessoal da primeira geração que aportaram nesses países, pois praticamente chegavam com uma mão na frente e outra atrás. Minha mãe, por exemplo, foi a única sobrevivente da família dela. Os armênios passaram por um drama muito difícil de sobrevivência”. É dessa forma que Simão Kerimian, presidente do Conselho Nacional Armênio para a América do Sul, descreve o drama pelo qual seus conterrâneos sofreram.

Após 90 anos de chegada ao Brasil, alguns armênios desenvolveram trabalhos sociais intencionados em aumentar a atuação da nova geração na sociedade. Considerando o fato de que o grupo não tem grande projeção política e empresarial forte no país, como as comunidades judaica, libanesa e até mesmo turca, esses trabalhos podem ajudar a reverter esse quadro. A Sociedade das Damas Beneficentes Brasil-Armênia, presidida por Rosi Pamboukdjian, por exemplo, auxilia na mensalidade de faculdades de jovens armênios. “Nossa finalidade é ajudar quem tem necessidade, mas no caso do auxilio escolar, apenas o pessoal de descendência armênia é beneficiado”, afirma Rosi, lembrando que a entidade também auxilia a população em geral na compra de medicamento e exames clínicos.

Simão lembra que a população armênia foi se desenvolvendo com a cidade. Com o aumento de projeção social e enriquecimento, muitos optaram por sair do bairro, uma vez que o local não oferece trabalhos, serviços e cultura que uma população de nível social alto espera de uma metrópole. No entanto, ressalta que a relação dessa população com o bairro, que carrega como nome sua nação de origem, não se dissolve por completo pelo fato de as igrejas armênias – Apostólica, Católica e Evangélica – estarem localizadas em suas imediações, embora o número de fiéis que as freqüentam esteja diminuindo cada vez mais. Hoje, bairros como Pinheiros, Jardins e Santana são locais onde concentram grande número de armênios na capital paulista – onde obtiveram destaque nos setores de roupas (famílias Kherlakian, proprietárias das grifes Zoomp e Zapping, e Bogosian, representantes das grifes Versace, Roberto Cavali e Christian Dior) e jóias (família Vartanian).

Bairro de classe média média e baixa. Se levar em conta o grande número de casas e galpões com placas de “vende-se” e “aluga-se”, pode-se afirmar que é hoje um distrito despovoado. O que não quer dizer que não exista circulação de pessoas pelo bairro. Pelo fato de ser uma área que interliga a Zona Norte ao Centro da cidade, muitas pessoas usam suas vias como forma de acesso para algum lugar, mas quase nunca como destino.

O número de desempregados da região é grande. O trabalho informal, com ambulantes e camelôs, toma praticamente todas as ruas nas proximidades da estação Armênia do metrô. O comércio do bairro atende somente as pessoas que moram nas suas imediações, não possui uma especialidade, oferta de emprego e um grande volume de dinheiro em circulação. Ivan Rolemberg, proprietário de uma banca de jornal há seis meses, diz que o ponto é fraco e está arrependido de ter se instalado naquela região. “O lugar é meio parado mesmo. Aqui só tem pequeno comércio e pequena empresa, não é um bairro residencial. Não adianta colocar 10 mil exemplares à venda e não ter retorno”.

O bairro não possui cinemas, museus, teatros, parques, shoppings, delegacias, escolas e hospitais públicos. Tamanha carência em recursos públicos e sociais, faz com que a população tenha que se deslocar para os distritos vizinhos, como Pari, Luz, Brás e Bom Retiro. “Quando minha filha fica doente, preciso ir ou ao posto de saúde do Pari, que tem um atendimento péssimo, ou à Santa Casa de Misericórdia, que fica em Santa Cecília”, diz Geni Jesuína da Silva, moradora do bairro há 20 anos.

Edvaldo Jassé de Mello x Khatcher Kechichian

- Espera aí, deixa eu ver quanto eu tenho nesse caixa. Tá vendo como não tem ninguém aqui nesse bairro! Hoje eu vendi duas pilhas, um rádio, uma garrafa de whisky e tirei algumas xerox. Tudo soma 50 paus. Vou ter que rebolar para pagar os 530 reais de aluguel. Antigamente isso aqui era muito bom, um lugar freqüentado por muita gente. Tinha muita indústria e várias fábricas. Hoje não tem mais nada. Só tem igreja. E igreja não traz dinheiro pra ninguém, eles só querem pra eles. Antes todo mundo trabalhava, todo mundo ganhava dinheiro, todo mundo faturava. Eu tirava 400, 600 paus por dia. Hoje eu não ganho isso por mês!

- Tá falando sozinho, seu baiano louco!

- E aí, seu velho armênio bicha louca! É você que está saindo com os pederastas aí da rua Porto Seguro? Hahahaha...

- Sua mãe, seu sem vergonha! Hahahaha...

- Mas seu Khatcher, nesse bairro só tem travesti mesmo. Acho que eles são os únicos de ganham dinheiro por aqui.

- Mas isso logo vai acabar, Edvaldo. Você não lembra da favela que tinha ali atrás? Depois que a prefeitura tirou, melhorou bastante. Este bairro já foi mais violento do que é hoje.

- É... o bairro está mais calmo. Também, aqueles sem-teto não trabalhavam, não pagavam aluguel, não pagavam IPTU, não pagavam nada. Só roubavam mesmo. Graças a Deus eles foram embora. Eu não tenho nada contra eles não, viu. Mas era o que acontecia. Hoje é difícil ver homicídio por aqui. Só ali perto da estação do metrô que é mais perigoso.

- E às vezes quando sai briga com as travestis... à noite já escutei uns tiros por aí. Elas brigam por causa dos pontos.

- Pois é, elas brigando por ponto pra ganhar dinheiro e os imóveis do bairro valendo cada vez menos. Em lugar algum de São Paulo você encontra uma casa de 30 mil, ou 40 mil. Nem em favela você encontra casa tão barata. Aqui tem. Mas ninguém consegue vender.

- Faz dois anos que eu estou tentando vender minha casa e não consigo. Tô pedindo 200 mil, os caras querem dar 120. Por esse preço eu não vendo. A desvalorização é muito grande. Eu estou louco pra sair daqui, mas por preço de banana eu não entrego!

- Eu pensei que você gostasse do bairro... É um bairro plano, não tem um monte de subida, descida. E é pacato, tranqüilo.

- Isso daqui já foi bom pra morar, mas hoje não é mais, não. Pra você ver, não sobrou quase nenhuma família armênia aqui. Só a minha e mais umas três.

- Seu Khatcher, então esse bairro não é bom nem pra trabalhar e nem pra morar. Esse bairro vive do passado. Vive de ilusão.


A religião e a vida da comunidade

10 horas da manhã, domingo, 5 de junho. Tôôôm, tôôôm, tôôôm. Toca o sino da Igreja Apostólica Armênia, localizada na avenida Santos Dumont, bairro Armênia, São Paulo. Apenas 7 pessoas estão dentro da paróquia para celebrar a missa. Todas, sem exceção, são idosas.

A igreja tem estilo diferente do padrão brasileiro, com toques orientais devido à influência que os países do leste exercem sobre a cultura armênia. Tapetes verdes escuros, 15 lustres de cristal, vitrais desenhadas em azul escuro, pouca iluminação (as cores escuras do ambiente absorvem a energia solar vinda das 10 janelas laterais), desenhos de passagens bíblicas não convencionais aos padrões ocidentais (a figura de Jesus, por exemplo, é morena, tem barba negra, olhos escuros e nariz grosso).

O sacerdote veste uma capa com capuz feita de com o tecido mousseline de cor roxa, a qual se fecha com broche de crucifixo. Já o padre, que dentro dos dogmas armênios tem a permissão de construir uma família, usa roupas ainda mais adornadas: capa branca com detalhes dourados feita também de mousseline, mas sem capuz. Apenas um colarinho duro é o suporte da longa vestimenta. Em sua cabeça, uma coroa de bronze que lembra a capela de uma igreja tanto pelo formato de cone quanto pela cruz disposta em sua extremidade.

Toda a missa é celebrada em armênio, apenas a homilia é feita em português. O folhetim com cada passagem da missa pode ser acompanhado por um painel eletrônico disposto ao lado esquerdo do altar. Assim, as pessoas sabem exatamente a hora de levantar, cantar, ajoelhar. Acompanham o andamento da missa a partir do painel. Cada passagem é marcada por um número. A missa tem, em sua totalidade, 273 passagens.

Em cima do altar existem 13 castiçais que têm em seus interiores uma luz vermelha, que indicam que no local existe o corpo de cristo. Na hora em que o padre gratifica com hóstia os fiéis desprovidos de pecados, uma cortina de veludo fecha o altar. Todos que recebem a hóstia ficam ajoelhados diante da imagem de uma cruz que colada a tal cortina. Um silêncio absoluto instaura-se na igreja, todos parecem estar refletindo. Após o momento de reflexão as pessoas voltam aos lugares que ocupam nos bancos da igreja. Um coral, que tem cerca de 6 integrantes, começa a cantoria de encerramento. Todos dentro da igreja acompanham o livreto com a letra música.

Ao término da celebração da missa, que teve duração de duas horas e quarenta minutos, pode-se contabilizar 63 pessoas dentro da paróquia. Dentre elas existem 2 crianças e nenhum adolescente. O que evidencia que mesmo a escola Armênia ligada à igreja e localizada no mesmo endereço, a qual contabiliza 102 alunos nos ensinos fundamental e médio, consegue atrair fiéis mais jovens às celebrações. Na década de 70 o bairro da Armênia era um dos mais luxuosos de são Paulo. Agora ;e feio e violento, tem muitos assaltos”. É dessa forma que o sacerdote Hoanes Koutoudjian justifica a baixa pouca presença de fiéis nas missas celebradas na igreja apostólica Armênia. Ele acredita que a degradação do bairro afastou as pessoas que moram em bairros distantes.

Tôôôm, tôôôm, tôôôm. Ao meio dia e quarenta o sino toca novamente, mas desta vez para avisar que a cerimônia acabou. Antes de ir embora, todos recebem um pedaço de pão sagrado.


O pagador de promessa

Na rua Porto Seguro, onde se encontra uma das poucas instituições que trabalham com os problemas sociais do bairro – a Casa de Convivência Luz do Dia– está Miguel Leite de Azevedo. Sentado na calçada, com um saco plástico na cabeça, roupas velhas e rasgadas, duas sacolas com seus apetrechos e um garrafão de água ao lado, ele canta alto e fala sozinho.

Miguel, antes de qualquer conversa, faz questão de esclarecer que não é morador de rua. “Moro em albergue e durante o dia fico aqui nessa Casa de Convivência”. E para que não haja dúvidas, ele mesmo diz quais são as diferenças: “Casa de Convivência é diferente do albergue porque não tem cama pra dormir. Eles dão café da manhã, almoço e lanche. Tem escola e trabalho. Tudo em um ambiente de família. A gente trabalha na limpeza da casa ou na horta. Como irmãos”.

Miguel também estuda na casa. Segundo ele, é uma escola para intelectual, “um curso de analfabetização”. Diz que já estudou muito nos primeiros anos em São Paulo. “Já tirei quatro diplomas, mas como sou muito íntimo com o pessoal da casa, eles pediram para que eu estudasse mais um pouco do que já sei”.

Miguel tem 67 anos, veio de Anadias, município de Alagoas. “Saí de lá fugido, eu abandonei a família”. Há 49 anos está em São Paulo. Já foi ajudante geral, vendedor, dono de barracas em feiras-livres e boxeador. Segundo ele, há 13 anos, decidiu abandonar todo o caminho do dinheiro, da fortuna e da ganância para alcançar o verdadeiro sentido da vida. “Eu estava em uma estrada de erros. Fazia coisas erradas perante o caminho da vida. Era lutador de boxe, e lutar boxe para mim é errado. Já ouviu falar que boxe é criminoso? Pois é”.

Seu grande medo é o de, ao praticar o esporte, ter matado alguém. “Como lutador de boxe, eu nunca matei. Mas cheguei quase a matar”. Abandonou o nome de registro e faz questão de ser conhecido somente como: Miguel – o pagador de promessa. “Pela justiça divina, eu sou proibido de falar que eu era lutador de boxe. Eu pago promessa para a Santa Igreja. Eu sou católico, apostólico, romano”.

Miguel Leite de Azevedo ou simplesmente Miguel – o pagador de promessa – tornou-se uma figura conhecida na região do bairro Armênia. Diz que depois que a prefeitura removeu a favela que existia lá, diminuiriam a bagunça e a quantidade de pessoas que viviam nas ruas. No bairro, tem poucas amizades, mas são sinceras, como as do pessoal da padaria Guaporé.

Nesses anos de convivência, Miguel sabe de tudo sobre a região. Até sobre histórias que nos conta em um tom sinistro e macabro:

“Nessa rua, à noite, acontecem coisas muito estranhas. Ela é muito freqüentada depois das nove horas! Aí na frente é uma igreja, no passado era uma fábrica. Eles colocaram essas câmeras nas calçadas porque aqui, nesse lugar mesmo, perante a igreja e a Casa de Convivência, coisas inacreditáveis acontecem. Eu nunca vi, mas as pessoas que moram aqui falam que, quando o dia dá adeus e a noite cai, essa rua é tomada por... Já ouviu falar que existem uns homens que se chamam Travesti? Pois é, são eles. Eles ficam aqui a noite toda até o dia raiar. E as câmeras pegam tudo”.
Assinatura Abraji