• 28.06
  • 2004
  • 19:20
  • MarceloSoares

Angelina Nunes conta os bastidores da série "Bastidores do Poder"

Deputados que aumentam seu patrimônio em mais de 1.000%. Deputados que entram para a política como camelôs e, em seis anos, tornam-se milionários. Seriam acusações graves, se não fossem baseadas em documentos assinados por eles próprios e entregues à Justiça Eleitoral. Os leitores de O Globo puderam ler essas revelações, durante uma semana, na série de reportagens “Bastidores do Poder”.

Levantar e analisar os perfis dos bens de todos os deputados de uma Assembléia Legislativa parece uma tarefa monstruosa para qualquer redação brasileira – com todos os problemas de falta de tempo, gente e recursos. Mas uma bem-azeitada equipe de seis repórteres de O Globo, coordenada pela editora-assistente Angelina Nunes, passou quatro meses trabalhando nisso paralelamente ao trabalho diário.

O comprometimento do grupo foi fundamental. Os freqüentes encontros do grupo eram tão sigilosos que o exército Brancaleone carioca chegou a ganhar um apelido: “A Irmandade”. Para Angelina, o comprometimento de toda a equipe é necessário para que esse tipo de reportagem seja publicada. E não é necessário ter toda a estrutura de O Globo: as autoridades que detêm a informação foram receptivas a entregá-la. Todo o resto é trabalho de equipe.

De domingo a domingo, na última semana de junho, Angelina e os repórteres Alan Gripp, Carla Rocha, Dimmi Amora, Flávio Pessoa, Luiz Ernesto Magalhães e Maiá Menezes publicaram a série no jornal carioca – mesmo lutando contra a demanda das notícias de última hora, como a morte do ex-governador Leonel Brizola. “Nas duas últimas semanas, colocamos três repórteres dedicados a isso. Outros dois trabalhavam também na pauta e no dia”, diz Angelina. Ela também participou com entusiasmo da apuração.

Com as revelações feitas a partir da série de reportagens, o TRE do Rio já se comprometeu a colocar na internet todas as declarações de bens que os candidatos apresentarem para este ano, além de prometer ser mais rigoroso na fiscalização dos documentos.

Leia abaixo a entrevista de Angelina Nunes ao website da Abraji.



1. Como surgiu a idéia de investigar os perfis dos deputados?

A idéia surgiu em uma das reuniões do grupo de Administração Pública (na editoria Rio somos divididos por times: Administração, Justiça e Polícia, Geral, Educação etc..... ) no final do ano passado. Fizemos uma reunião para definir pautas de matérias especiais para dois, três meses que gostaríamos de fazer em 2004. Surgiram algumas idéias e depois fechamos nessa pauta. O objetivo era fazer uma radiografia dos deputados estaduais, fazer um Raio X da Alerj. Afinal, nós fazíamos matérias, sabíamos muita coisa de bastidor e resolvemos encarar essa empreitada. Depois sacramentamos a pauta num almoço na semana do Natal. Mas só conseguimos tocar a pauta depois do Carnaval, quando fomos ao TRE.

2. Quanto tempo levou a investigação? Como os repórteres administraram esse tempo com o natural fluxo de matérias diárias?

Antes de pegarmos oficialmente os documentos no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), fizemos uma pesquisa sobre os deputados e distribuímos tarefas para cada um. Depois do Carnaval, fomos ao TRE para uma entrevista com o desembargador Marcus Faver (presidente do tribunal). A idéia era saber até que ponto o TRE poderia abrir seus arquivos ou se a gente entraria com pedido na Justiça para ter acesso a esses documentos (registro dos candidatos) que são públicos. O desembargador abriu as portas e falou que era a favor da transparência. Isso nos poupou um bom tempo. A partir daí, foram quatro meses. Quando os documentos chegaram, já estávamos com alguns perfis alinhavados, listando coisas para serem apuradas. É claro que conciliamos essa pauta com matérias diárias. Até porque aqui no Rio a pauta diária é frenética, tivemos rebeliões, caso Naya, fiscais saindo da cadeia, sem falar em Carnaval... Ou seja, não pudemos sair totalmente de pauta para tocar isso. Nas duas últimas semanas, colocamos três repórteres dedicados a isso. Outros dois trabalhavam também na pauta e no dia (os outros dois entraram de férias, mas antes de viajarem deixaram pronto o material deles). Ou seja, nós fizemos um planejamento também para conciliar o trabalho diário com a especial.

3. Quais foram as maiores dificuldades para produzir a série?

Manter a pauta em sigilo foi fundamental e muito complicado. Trabalhamos correndo contra o relógio, para aproveitar cada minuto. Fizemos reuniões diárias no último mês (antes eram semanais ou duas vezes por semana, as reuniões oficiais. É claro que a gente conversava o tempo todo, no café, no lanche, por e-mail...) para azeitar a apuração. O trabalho em equipe fez realmente a diferença nisso tudo. Um confiava na apuração do outro. Um pedia ao outro para dar palpite no texto, opinar.

4. A equipe usou auxílio de programas de computador? Como foi esse uso?

Usamos o Excel para colocar os dados dos documentos (declarações de bens dos candidatos), fazer as tabelas, os gráficos que serviram de base para os infos da arte. Além do uso de busca em sites para checar nomes, CPFs, situação na Receita Federal, no ICMS. Esse tipo de ferramenta foi fundamental para organizar os dados. Além de cada repórter ter seu método de arquivo particular para guardar sua apuração.

5. Foi necessário obter documentos na Justiça? Foi preciso entrar com processo para obtê-los ou apenas o requerimento já produziu resultados? Qual foi o grau de colaboração das autoridades envolvidas?

Como encontramos boa receptividade no TRE, não foi preciso entrar com processo na Justiça para obter essa documentação. O requerimento foi suficiente. O TRE abriu as portas, mas eles só tiveram noção do que era a matéria quando foi publicada.

6. Como foi a semana em que as reportagens foram publicadas? Houve alguma mudança específica de rumo durante esse período?

Tivemos trabalho dobrado na última semana. No nosso caso, estabelecemos que o personagem não poderia ser ouvido de última hora. Ele deveria ter tempo para falar e nós teríamos tempo para fazer a checagem da defesa dele, o que foi feito. Nós planejamos os dias de cada pauta e isso facilitou a organização interna.

7. Qual foi a repercussão da série? Houve algum tipo de mudança imediata nos procedimentos do tribunal e das autoridades?

A repercussão tem sido muito boa. Os deputados, é claro, não gostaram. Alguns tentaram, através de advogados, ver a possibilidade de entrar com processo, direito de resposta. Um caso emblemático foi o de um deputado bastante influente que respondeu através do advogado e tentou, depois da publicação, uma medida judicial. No entanto, ele teve que ouvir do advogado que nada poderia ser feito. Isso foi uma bela resposta para nosso trabalho. O TRE já decidiu que as próximas declarações estarão na internet. A Receita Federal disse que investigará essas declarações de bens citadas na matéria.

8. Vai haver continuidade nessa série para além dos sete textos iniciais?

É claro. Já estamos trabalhando em outras frentes.

9. Como se organiza a editoria Rio? Foi preciso algum arranjo organizacional específico para a apuração em equipe ou já existia esse arranjo?

Na editoria Rio, somos divididos em times. No nosso caso, a Administração Pública, somos sete (um editor-assistente e seis repórteres). O que acho bom nisso é que somos sete pessoas com características profissionais muito bem definidas, com habilidades específicas e bem-humorados. Uma vez, um coleguinha disse brincando que não éramos um grupo porque a gente fazia reunião toda hora, que parecia uma irmandade. Virou então uma piada. A gente se trata como "A Irmandade" (risos) Também nos organizamos assim para essa pauta: reuniões semanais no início. No último mês, reuniões diárias para dar retorno, zerar apuração, sugestão de foto, infográfico. Todos participaram de tudo.

10. O tamanho do jornal é fundamental para fazer esse tipo de reportagem ou qualquer veículo pode fazer algo assim?

A orientação e o apoio do editor da Rio, Paulo Motta, foi fundamental para a publicação da série. Acredito que, independente do tamanho do jornal, uma boa equipe pode fazer um trabalho de qualidade, se todos estiverem comprometidos e envolvidos na pauta.
Assinatura Abraji