• 18.05
  • 2005
  • 16:39
  • MarceloSoares

Alan Alex: "A revelação das fitas apenas comprovou os fatos"

Porto Velho, em Rondônia, vive seu terceiro dia de quebra-quebra após a transmissão, pela TV Globo, de gravações em que deputados pedem propina ao governador Ivo Cassol (PSDB). As imagens inicialmente tiveram sua exibição proibida no Estado, por liminar do desembargador Gabriel Marques. Na terça-feira, essa liminar foi cassada.

Em entrevista ao site da Abraji, Alan Alex, diretor do website Portal364.com e sócio da Abraji em Porto Velho, diz que a única novidade trazida pelas fitas, para quem acompanha criticamente a política rondonense, foram as imagens. Durante a vigência da liminar, seu website era a única fonte local que tinha o vídeo apresentado pela Globo.

"Desde domingo - quando colocamos no ar uma gravação da matéria do Fantástico que foi proibida na televisão - registramos mais de 80 mil acessos e o vídeo foi baixado 57 mil vezes. Associações de moradores de bairros solicitaram cópias em CD e distribuímos 21, que foram exibidas nas sedes das associações, universidades e escolas."

Leia também algumas das reportagens publicadas pelo Portal 364 nos últimos anos, que dão o contexto da crise política no em Rondônia.




As gravações mostradas pela Globo e temporariamente censuradas pela Justiça traziam alguma revelação que não fosse conhecida pelos jornalistas que cobrem Rondônia?
Não. É claro que não tínhamos riqueza de detalhes, mas todos sabiam o que acontecia. A revelação das fitas apenas comprovou os fatos.

A melhor cobertura dos protestos veio dos websites. Qual o papel dos websites jornalísticos na cobertura do interior do Brasil?

O site Rondônia Agora é ligado à Assembléia Legislativa e tem feito uma cobertura distorcida dos fatos, assim como os jornais impressos. A Folha de Rondônia é ligada ao governador; O Estadão do Norte pertence a Mário Calixto, suplente de Amir Lando, e por enquanto só publica o estritamente necessário para não perder leitores; o Diário da Amazônia pertence à família Gurgacz (dona da União Cascavel), que tem à frente Acir Gurgacz, candidato derrotado ao governo nas últimas eleições e está aborrecido porque o governador quer tirar o monopólio do transporte interestadual da Cascavel, e por isso vem dando uma cobertura parcial aos fatos.

Desde nossa fundação, em 2002, o Portal364 tenta ser o mais imparcial possível, dando espaço para todos os segmentos que estão nessa confusão - só não ao Legislativo porque eles não estão se manifestando, insistem em querer afastar o governador e não tocam no assunto principal, que seria a punição aos parlamentares flagrados.

Quanto a importância dos websites, pelo menos aqui em Rondônia, é fundamental. Desde domingo - quando colocamos no ar uma gravação da matéria do Fantástico que foi proibida na televisão - registramos mais de 80 mil acessos e o vídeo foi baixado 57 mil vezes. Associações de moradores de bairros solicitaram cópias em CD e distribuímos 21, que foram exibidas nas sedes das associações, universidades e escolas. Os sites também estão dando ampla cobertura fotográfica aos eventos que estão se desenrolando por aqui. Não fosse pelos sites, o acesso à informação seria restrito aos jornais e emissoras de TV, que divulgam apenas o necessário e de foram distorcida.

Como é a cobertura do poder, tanto Legislativo quanto Judiciário, em Rondônia?
A cobertura do Legislativo basicamente se resume à publicação de releases enviados pela Assembléia Legislativa. O trabalho de investigação e denúncia é feito apenas pelo Portal364.com, e isso é lamentável, pois se os demais veículos de comunicação fizessem um trabalho sério, certamente a situação não teria chegado a esse ponto.

Com o Judiciário, é a mesma coisa. Quando o desembargador Sebastião Teixeira Chaves concedeu uma liminar dando posse a Natanael Silva (ex-presidente da Assembléia) no Tribunal de Contas, fomos os únicos a denunciar que eles eram amigos íntimos e que Chaves não poderia jamais ter dado a liminar. Também denunciamos Gabriel Marques, o desembargador que censurou a reportagem do Fantástico por ele ter negado a quebra de sigilo bancário da Assembléia Legislativa de Rondônia quando denunciamos que dinheiro do Legislativo estava sendo utilizado para pagar funcionários do site Rondônia Agora, que pertence a Natanael Silva, representado na sociedade por um "laranja".

Também questionamos o Ministério Público de Rondônia, que simplesmente paralisou todas as investigações que estavam em andamento contra as fundações assistencialistas mantidas pelos deputados. Nos últimos anos, o Judiciário rondoniense simplesmente envia releases para jornais e sites e todos se contentam em reproduzi-los, sem questionar absolutamente nada.

Lamentamos profundamente que isso venha ocorrendo em Rondônia, e essa é uma situação que criticamos há tempos. Mas sabíamos que apenas com a entrada da chamada "grande imprensa" toda a sujeira viria à tona e que providências seriam tomadas. Também lamentamos o fato do Governo Federal estar demorando tanto para tomar medidas drásticas, que seria acionar a Polícia Federal e expedir mandados de prisão contra os parlamentares flagrados nas fitas do governador.

Em que outros possíveis desdobramentos das revelações apresentadas no Fantástico os jornalistas que acompanharam o quebra-quebra em Rondônia devem ficar de olho?
A impunidade. Sabemos que no Brasil escândalos surgem diariamente e as atenções são desviadas. Os deputados estão querendo ganhar tempo para deixar as coisas esfriarem. Por isso, criaram uma comissão interna para investigar as "supostas" denúncias. Também é preciso ficar atentos às fontes de informação. Quem não vive em Rondônia não conhece a real situação do Estado e termina pegando informações distorcidas. Também é preciso ampliar o leque de denúncias, pois a impunidade aqui reina há anos. Basta lembrar do caso Olavo Pires (senador que foi assassinado diante de dezenas de testemunhas, cujos mandantes nunca foram oficialmente identificados) e Valdir Raupp, ex-governador, atualmente senador, que responde a dezenas de processos e nunca foi condenado por causa da imunidade parlamentar.
Assinatura Abraji