• 03.08
  • 2004
  • 18:22
  • MarceloSoares

Acidentes de Percurso e Pensando Diferente

Originalmente publicado em www.journalism.org
Tradução de Marina Della Valle

No dia-a-dia da cobertura de uma eleição, é fácil sucumbir à tentação de supersimplificar questões e pessoas. As campanhas eleitorais se tornaram jogos que conhecemos tão bem que começamos a pensar que sabemos as respostas de todas as questões. E é desta maneira que nós escrevemos sobre as eleições. Veja abaixo algumas maneiras de evitar o tipo de cobertura contaminada pelo excesso de familiaridade com o assunto.

[b]1. Examine suas conclusões mais cínicas[/b]
[i]Phil Trounstine, editor de política do San Jose Mercury News[/i]

Há uma diferença entre ser cético e ser cínico. O cético tem a mente aberta; é inseguro e quer conhecer todas as respostas possíveis para uma questão antes de sentir segurança. O cínico tem uma mente fechada: acha que já sabe a resposta – e geralmente é a pior. No dia-a-dia da cobertura, é fácil ficar preso pela visão de que os políticos são corruptos de alguma maneira – porque alcovitam eleitores, grandes empresas e grandes doadores. No entanto, ser cético inclui duvidar de suas próprias idéias e preconceitos e considerar outras interpretações da ação ou fato. É possível, por exemplo, que um político adote uma posição porque acredita realmente nela, recebendo dinheiro de lobby por isso e agradando seus correligionários ao mesmo tempo. É assim, na verdade, que o sistema político foi feito para funcionar. As três coisas podem coexistir ao mesmo tempo. O fato de os políticos terem benefícios pessoais fazendo isso não significa necessariamente que lucro é sua única motivação. Muitos jornalistas já disseram: revise suas matérias para retirar o cinismo. Freqüentemente, tomar o viés cínico pode fazer com que você se sinta um realista de carteirinha, mas isso pode, na verdade, ser simplista.

[b]2. Política é uma questão de caráter[/b]
[i]Paul Taylor, ex-Washington Post[/i]

Veja as políticas públicas e a plataforma política como janelas para entender o caráter. Mais importante e útil que a posição de alguém sobre uma questão é o que essa posição diz sobre essa pessoa. Como ela chegou a essa posição? Porque ela se sente desta maneira? Sua opinião mudou? Quão convicta ela está? Quão extremista ou moderada? Como isso se diferencia de outras posições em outras questões ou as reforça? Como essa posição de encaixa na história de pensamento do partido nesta questão? Como ela se encaixa em sua visão de mundo? Que experiências ou quais pontos em sua biografia levaram a pessoa a adotar essa posição? Subitamente, tomando esses cuidados, as propostas tomam vida, se transformam em histórias humanas e ganham uma autenticidade que não têm quando estão no plano abstrato. Esse método ainda pode ser a chave para descobrir se um candidato realmente está comprometido com uma questão ou se apenas adotou tal posição por motivos eleitorais ou para satisfazer correligionários ou interesses lobbistas.

[b]3. Procure a campanha eleitoral invisível[/b]
[i]Bill Kovach, chefe do Comitee for Concerned Journalists[/i]

Conversar com os eleitores é uma forma de descobrir quem vai ganhar as eleições, mas quem está falando com eles, e como? Estamos deixando essa história escapar porque a campanha desapareceu da esfera privada, com candidatos cada vez mais fazendo apelos por meio de mala direta, email, CD-ROM, etc? Os repórteres devem usar a internet durante a campanha, não apenas para escrever reportagens sobre “tecnologia e campanha”, mas também para descobrir o que as pessoas estão falando sobre ela. Os repórteres devem se registrar em diferentes sites de campanha e descobrir que tipo de mensagens os internautas recebem. Eles poderiam verificar com membros da comunidade para ver se diferentes localidades e grupos sociais recebem tipos diferentes de mensagens, ou pedir a um grupo de eleitores que mostre toda a mala direta que recebem.

[b]4 – Cuidado com a falácia dos “burros e malvados”[/b]
[i]Tom Rosenstiel, diretor do Project for Excellence in Journalism[/i]

Raramente as pessoas fazem coisas simplesmente porque são Malvadas ou Burras. Geralmente, elas fazem coisas por conta do que parece ser uma boa razão naquele momento, mesmo quando os resultados são desastrosos. Políticos que querem cortes de impostos a favor dos ricos podem não estar fazendo isso apenas para compensar contribuintes gananciosos. Eles podem realmente acreditar que isso gere empregos (para cortar custos). Ou os que querem reforçar o governo podem não estar fazendo isso apenas em prol de colaboradores sindicais. Eles podem realmente acreditar que o governo é um instrumento de justiça social. Quando for apurar, certifique-se de levantar os motivos que levaram essas ações a serem adotadas. Não tire conclusões precipitadas. Não presuma nada. É muito fácil ver somente as conseqüências negativas de uma política depois e escrever que as pessoas foram ingênuas ou mesmo corruptas por terem adotado tal política. Essa conclusão pode ser não apenas incorreta, mas, quanto mais a realidade é complexa, mais humana e interessante ela é.

[b]5. Deixe o candidato falar[/b]
[i]John Mashek, ex-correspondente da revista US News & World Report[/i]

A coisa mais valiosa que você pode oferecer aos leitores é a chance de ouvir o candidato sem filtros. Separe um bom espaço em sua reportagem para registrar as opiniões do candidato em suas próprias palavras. A mídia impressa pode ser tão culpada de tirar o contexto das frases quanto a TV.

[b]6. Ultrapasse o paradigma Liberal/Conservador e observe os problemas e questões a partir de novos ângulos e em termos mais amplos[/b]
[i]Bill Kovach[/i]

A cobertura de uma questão é mais que apresentar duas vozes em desacordo. Examine as causas das questões que estão sendo discutidas. Descubra como outros países, Estados e municípios lidam com ela. Foque em soluções possíveis em vez de divulgar apenas o bate-boca partidário.
[i](POR EXEMPLO: quando você pergunta a alguém sobre crime, geralmente respondem falando sobre educação e oportunidades... no mundo real, as questões costumam estar relacionadas e não são facilmente resumidas em uma declaração). [/i]
Assinatura Abraji