Abraji denuncia intimidação e assédio judicial do advogado Willer Tomaz contra jornalistas
  • 22.10
  • 2026
  • 13:07
  • Abraji

Liberdade de expressão

Abraji denuncia intimidação e assédio judicial do advogado Willer Tomaz contra jornalistas

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) denuncia práticas do advogado Willer Tomaz, investigado pela Polícia Federal por corrupção e lavagem de dinheiro, para tentar silenciar o trabalho de jornalistas por meio do uso abusivo do sistema de justiça. Relatos recentes de jornalistas apontam para uma série de táticas como assédio judicial, tentativas de intimidação antes da publicação de reportagens e notificações extrajudiciais pedindo a retirada de conteúdos. 

Um levantamento da Abraji identificou que o advogado tem lançado mão dessa prática há mais tempo. Ao menos treze processos judiciais contra a publicação de reportagens jornalísticas foram movidos em nome do advogado na última década. Entre os casos mais antigos, porém, há um padrão: Willer desistiu das ações em algum momento. Às vezes, após perder uma decisão; em outras, depois de deixar de comparecer ao juízo pouco depois de ingressar com a ação.

Só em 2026, o levantamento encontrou quatro processos, entre ações criminais e pedidos de censura com indenização por danos morais movidos contra jornalistas. 

Em outubro, o jornalista Demétrio Vecchioli e o portal Metrópoles foram alvo de um processo em que o advogado pedia a retirada de uma reportagem sobre a relação dele com a empresa Riopag. A ação – que corre em segredo de Justiça, o que dificulta o acesso às informações – foi iniciada na Justiça do Espírito Santo, onde Tomaz afirma ter residência, apesar de o jornalista, o veículo e todas as ações anteriores do advogado estarem vinculados a Brasília. Em julho deste ano, o jornalista e o veículo já haviam sido alvo de uma ação iniciada por Tomaz, da qual o advogado pediu a desistência logo após o início do processo. 

Os dois casos exemplificam algumas estratégias comuns do assédio judicial, já reconhecidas pela Recomendação Nº 159 de 23/10/2024 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Acionar a Justiça para pedir uma correção de informação é um meio legítimo de reparação. Mas abandonar o processo logo após ingressar com a ação indica que a suposta vítima não tem a pretensão legítima de retificar a informação. Já a escolha de um foro diferente do domicílio do réu é uma estratégia que dificulta o exercício do direito de defesa.

O uso do sistema de Justiça dessa maneira impõe custos aos jornalistas e veículos e pode produzir um efeito de intimidação mesmo quando a ação não prospera. Reportagens fundamentadas em documentos, fontes oficiais e outras informações de interesse público passam a exigir, além do trabalho jornalístico, recursos para a defesa em processos que podem se arrastar por anos.

As tentativas de intimidação também ocorrem antes da publicação. Recentemente, Tomaz enviou mensagens idênticas a diferentes veículos que produziam reportagens sobre sua atuação: “Qualquer publicação que omita, distorça ou sugira algo diferente do que consta desta nota e das anteriores será objeto das medidas judiciais cabíveis contra o veículo e os responsáveis.”

Esse comportamento transforma a boa prática de escutar todos os lados citados em uma matéria, fundamental ao exercício jornalístico, em um canal de pressão a todos aqueles que investigam fatos de interesse público envolvendo o advogado. 

Veículos também relataram o recebimento de notificações extrajudiciais do escritório de advocacia de Willer Tomaz, pressionando pela retirada de conteúdo, independentemente de ação judicial. Em setembro deste ano, os jornalistas Paulo Motoryn e Alice Maciel receberam uma notificação extrajudicial em que o advogado solicita a remoção de uma reportagem assinada por ele no ICL Notícias, sobre empresas comandadas por Tomaz. A matéria não foi retirada e segue disponível. Até o momento, o veículo não foi notificado de nenhum processo judicial a respeito do caso.

Em outra situação, relacionada à revista piauí, a ameaça veio em uma nota oficial da assessoria de imprensa do advogado. Em uma reportagem publicada nesta semana sobre empresas offshore em nome de Willer Tomaz, o advogado classifica como “desinformação” suspeitas presentes nos próprios documentos de investigação da Polícia Federal usados como fonte da matéria. Também afirmou que “a piauí já responde judicialmente pela divulgação de informações falsas” e que o veículo “será novamente acionado judicialmente, assim como os responsáveis pela reprodução dessas informações” — anunciando um processo judicial mesmo antes que a reportagem fosse publicada. 

A Abraji considera que práticas como essas violam a proteção da liberdade de imprensa no país e o direito da sociedade à informação. Revelam clara inclinação para, em vez de buscar correção ou reparação, tentar silenciar o mensageiro e impedir que a informação chegue ao conhecimento da população.

A associação se solidariza com os jornalistas e veículos de comunicação alvos do uso abusivo do sistema judicial e cobra da Justiça e de autoridades competentes uma atuação célere para identificar e coibir práticas de abuso judicial que violam o direito da sociedade à informação de interesse público.

Desde 2021, a Abraji mantém um Programa de Proteção Legal para Jornalistas para garantir assistência jurídica a jornalistas e comunicadores que, em razão de seu trabalho, estejam sofrendo silenciamento ou constrangimento por meio de processos judiciais. Profissionais que estejam sofrendo assédio, ameaças e perseguição e que tenham interesse em processar civilmente os agressores também podem receber acolhimento do programa.

Os critérios de atendimento constam neste documento. Jornalistas que se enquadram nos requisitos podem enviar o seu caso por meio deste formulário ou para o canal oficial de atendimento: o email [email protected].

Diretoria da Abraji, 22 de outubro de 2026.
 

Assinatura Abraji