O jornalismo colaborativo no projeto Comprova
  • 06.12
  • 2018
  • 11:47
  • Sérgio Lüdtke

Liberdade de expressão

O jornalismo colaborativo no projeto Comprova

A concorrência pode ser um grande motivador, mas um propósito compartilhado por todos é muito mais. É o que pude constatar depois de 12 semanas de trabalho colaborativo no projeto Comprova. Nesse período, jornalistas de 24 veículos de comunicação concorrentes trabalharam em conjunto, colaborativamente, para apurar a veracidade de conteúdos duvidosos que circularam nas redes sociais durante a campanha eleitoral de 2018.

A fluidez do trabalho colaborativo depende do engajamento das organizações participantes e da clareza de objetivos. No Comprova, o processo que definiu as organizações que participariam da coalizão e, na sequência, o escopo do projeto, foi decisivo para criar uma base sólida para a colaboração. Com essas definições, foi escolhida a equipe que ficaria responsável pela coordenação editorial em São Paulo, da qual eu fiz parte, e os jornalistas que estariam envolvidos nos trabalhos de apuração localmente, nas redações de cada um dos 24 veículos da coalizão.

Antes do início dos trabalhos de verificação, os jornalistas foram reunidos em um bootcamp onde receberam treinamento e puderam conhecer pessoalmente seus novos colegas de trabalho. Essa é uma etapa fundamental para um trabalho colaborativo, principalmente se essa colaboração depender de equipes que vão atuar remotamente. O contato pessoal ajuda a criar redes de relacionamento, mas sobretudo é uma oportunidade para revelar afinidades e reforçar os elos de confiança que serão tão necessários para o sucesso do projeto.

No bootcamp, os jornalistas do Comprova conheceram metodologias e ferramentas de monitoramento de redes e foram treinados para uso de uma série de recursos que permitiram a eles fazer a apuração de conteúdos duvidosos que viralizaram nas redes sociais durante as eleições. O treinamento presencial, com atividades práticas e em grupos, é importante numa fase como essa para reforçar o relacionamento e promover um intercâmbio maior de experiências. Os verificadores complementaram sua formação com algumas horas de cursos online, mas foi o período em que estiveram juntos o que mais contribuiu para que se engajassem no projeto.  

De volta às redações e agora trabalhando remotamente, a comunicação entre o grupo passa a ser vital para o projeto. A intenção inicial era fazer uso de uma ferramenta de comunicação como o Slack, capaz de atender às necessidades de recursos requeridos para um projeto com a complexidade do Comprova. Mesmo assim, o grupo optou pelo WhatsApp. 

Apesar da aparente inadequação da ferramenta e do número impressionante de mensagens recebidas no grupo dos verificadores - 18,5 mil - essa escolha não pode ser considerada equivocada. O WhatsApp era uma ferramenta de uso comum e corriqueiro entre os participantes e, portanto, mais capaz de capturar a atenção do grupo, a qualquer momento e em qualquer lugar, do que uma outra que fosse usada exclusivamente para o projeto.

Obviamente, em alguns momentos, quando havia mais de um assunto em discussão e muitas pessoas envolvidas nas conversas, a comunicação ficou um pouco confusa. No período em que investigamos um vídeo aéreo que mostrava a inscrição Bolsonaro 2018 numa plantação, chegamos a trocar 545 mensagens no grupo de WhatsApp em um único dia. A solução foi migrar as conversas sobre as verificações já em andamento para o Google Docs, reservando o WhatsApp para as comunicações que devessem ser de conhecimento de todo o grupo. 

O Google Docs já estava sendo usado para armazenar os conteúdos das verificações. Criamos um template que foi utilizado como base para cada uma das novas investigações. Com ele organizávamos o trabalho de apuração, armazenávamos os conteúdos, estruturávamos a narrativa do post que viria a ser publicado no site, e este template acabou sendo o espaço de debates sobre as verificações em si, drenando boa parte das discussões que estavam sendo feitas pelo WhatsApp. 

Em um trabalho colaborativo são geradas muitas conversas. No caso do Comprova, optamos por um modelo de gestão por consenso, o que estimulou ainda mais a participação dos verificadores. Nesse modelo horizontal, é importante que a opinião de todos seja sempre respeitada e que seja garantido o espaço para manifestações. No projeto, os verificadores foram incentivados a comentar, intervir e propor soluções mesmo para as verificações nas quais não estivessem diretamente envolvidos. O processo de decisão adotado não necessariamente exige mais tempo já que o consenso não é alcançado por uma votação, ele pode ser simplesmente observado. Ele requer, sim, amadurecimento das decisões, o que é extremamente bem-vindo num trabalho de apuração que prime pelo rigor.

Ainda que as redações tradicionais sejam lugares de hierarquia mais rígida, com processos de decisões mais verticais, um modelo por consenso tende a valorizar mais os conhecimentos, as opiniões e a participação de todos. Uma pesquisa feita com os verificadores no final do projeto mostrou que 89,5% deles não tinham experiência anterior de trabalho colaborativo em rede. Todos disseram que estavam satisfeitos com o modelo de gestão por consenso e com o trabalho colaborativo e 78,9% disseram que estavam plenamente satisfeitos com o nível de colaboração dos colegas.

A abertura para a participação de todos implica em mais comprometimento, distribui as responsabilidades e cria um maior zelo pelo resultado final. No Comprova, esse engajamento ajudou a garantir o rigor do trabalho de apuração e a alcançar mais facilmente a meta de erro zero. 

A clareza das metas e um escopo bem definido também ajudam a evitar ruídos. No caso do Comprova, o escopo e os objetivos estavam claros desde o começo e as questões que pudessem gerar dúvidas foram sendo resolvidas na maior parte das vezes em comum acordo. Com transparência e abertura para a participação, os verificadores, além de colaborar com os colegas, passaram a ser também fiscais dos objetivos do Comprova.

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Assinatura Abraji