Livro-reportagem conta a história de afetados por barragens
  • 06.12
  • 2018
  • 16:16
  • Rafael Oliveira

Formação

Livro-reportagem conta a história de afetados por barragens

A cidade de Sobradinho, na Bahia, é famosa por conta de uma usina hidrelétrica construída ali entre as décadas de 1970 e 1980. Logo ao lado, no município de Sento-Sé, fica uma comunidade de realocados pela construção da barragem necessária para a instalação da usina. João Pedro Ramalho Martins, natural de Sobradinho, resolveu contar a história dos afetados pela construção da barragem em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), na Universidade do Estado da Bahia. O livro-reportagem Vazio das Águas: vidas submersas, identidades forjadas foi um dos trabalhos apresentados no 13º Congresso da Abraji.

Antes do TCC, Martins já entrara em contato com a comunidade durante um projeto de iniciação científica, no quinto período do curso de jornalismo. Do trabalho “Barragens, imagens e história oral”, orientado pela professora Carla Paiva, surgiu a ideia para o Trabalho de Conclusão. “Sempre tive curiosidade, desejo por conhecer as histórias das pessoas que foram afetadas negativamente pela hidrelétrica. Histórias que eu pouco ouvia e que diferem do discurso positivo em relação à barragem vigente no imaginário da minha cidade”, explica o jornalista.

Cinco dos entrevistados durante a iniciação científica, oriundos de um contato estabelecido através do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), também aparecem em Vazio das Águas. Além deles, três outras personagens foram apresentadas a Martins por uma amiga de seu pai. “Meu avô paterno era conhecido de toda a comunidade, o que facilitou uma aproximação com os moradores. Essa amiga de meu pai, então, me apresentou a um casal de moradores, bem como a um senhor que foi um dos primeiros moradores a chegar ao local por força da barragem”, conta.

Ao todo, entre pesquisa, análise e escrita do livro-reportagem e do memorial descritivo, o processo do TCC durou cerca de quatro meses. Um dos principais desafios de Martins foi conciliar o projeto com estágio, uma disciplina do curso e outros empecilhos, como ficar sem computador durante parte do período. 

Apesar das dificuldades, os meses de pesquisa proporcionaram algumas lições para o jornalista. “Me chamaram a atenção a dimensão do sofrimento vivido por elas [as pessoas atingidas pela barragem], principalmente pela dificuldade de acesso à água, e também sua resistência”, afirma. 

O convívio com essa realidade reforçou a “importância de um olhar humano” no exercício da profissão. “Especialmente quando o jornalismo se propõe a contar histórias de pessoas invisibilizadas, de grupos minoritários, como os atingidos por barragens, é preciso um tratamento e uma linguagem mais humanizada”, opina Martins.

Além disso, ao longo da realização das entrevistas em Sento-Sé, ele precisou se desprender de alguns conceitos aprendidos na teoria e enfrentou “desafios”. “Um deles foi o de não seguir o roteiro de perguntas, já que cada pessoa segue seu próprio curso no momento da conversa. O outro diz respeito à impossibilidade de realizar entrevistas individuais, uma vez que a memória, embora a imaginemos pessoal, é construída de forma coletiva”, explica o jornalista.

Após a finalização do livro-reportagem, Martins fez questão de entregar um exemplar de Vazio das Águas para cada uma das famílias entrevistadas para o projeto.

Apesar de não ter tido a oportunidade de retornar à comunidade desde então, um feedback recebido na própria visita de entrega dos livros o marcou: ao passar novamente na primeira casa que visitou, já no caminho de volta para Sobradinho, Martins foi abordado pela filha de um dos entrevistados. “[Ela contou] aos risos, como achou engraçada uma determinada cena em que seu pai aparece, no segundo capítulo do livro. Pela rapidez com que ela avançou nas páginas, deduzi que ela estava gostando da história”, relata.

A recepção do público que o assistiu no 13º Congresso da Abraji reforçou a “certeza da importância do trabalho e a sua qualidade”. Participar do evento, segundo Martins, foi “uma experiência bastante gratificante”. “Fiquei muito feliz por ter sido selecionado e por ter a oportunidade de participar de um congresso tão rico como o da Abraji. A apresentação em si foi tranquila e, preocupado com o tempo, acabei gastando menos minutos do que o máximo estipulado”, conta o jornalista.

Dicas para começar o TCC
Para João Pedro Martins, a palavra-chave para quem vai realizar um projeto de conclusão de curso é organização. “Esse costuma ser um período de muito esforço, de muito estresse, então é necessário tentar se organizar ao máximo”, opina o jornalista. Segundo ele, a forma de se organizar varia de pessoa para pessoa, mas o mais importante é não se perder no caminho. “Acima de tudo, é importante acreditar no seu trabalho, acreditar em si mesmo e, se preciso, pedir ajuda nos momentos em que houver mais dificuldade”, finaliza.

Assinatura Abraji