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03/02/16 - 10h48 -
8 lições de jornalismo investigativo no filme “Spotlight - Segredos Revelados”


Publicado em 7 de dezembro de 2015, no site do Global Investigative Journalism Network. Texto de David E. Kaplan.

“Spotlight - Segredos Revelados” é, sem dúvidas, um dos mais convincentes e perspicazes filmes de jornalismo investigativo desde “Todos os Homens do Presidente”, o clássico de 1975 sobre o caso Watergate. É um excelente roteiro que leva os espectadores para dentro da equipe de investigação Spotlight, do jornal The Boston Globe, enquanto os jornalistas mergulham em um dos crimes mais notórios de nosso tempo - a tolerância sistemática e o acobertamento de milhares de casos de pedofilia pela Igreja Católica. Em uma época em que o jornalismo investigativo está sob fogo cruzado em todo o mundo, aqui vai um tutorial em profundidade, sobre o porquê de o jornalismo investigativo ser tão importante para a democracia.

Por seu trabalho obstinado, o time do Boston Globe ganhou um Prêmio Pulitzer de Serviço Público, em 2003. E agora, 12 anos depois, o filme está ganhando críticas elogiosas e é candidato ao Oscar. 

As cenas do filme serão familiares para jornalistas do mundo todo que já investigaram pistas deixadas por dinheiro, por pessoas ou por corporaçõespessoas. Aqui seguem alguns dos melhores momentos, que acalentaram o coração deste velho repórter e que dão ao público uma muito necessária olhadela nos bastidores do ofício do jornalismo investigativo.

O “faro” investigativo: Em Boston, uma cidade fortemente católica, precisou que uma pessoa de fora, o editor executivo Marty Baron, pedisse uma investigação mais aprofundada do comentário de uma colunista sobre um caso de estupro ligado a um padre. O faro noticioso de Baron - algo que não pode ser facilmente ensinado - levou a equipe a uma investigação extraordinária. O time Spotlight esboçou uma hipótese de trabalho: que a Igreja protegia os padre pedófilos mais do que o imaginado, e, então, buscaram provar isso.

Descascando a cebola, mas ao contrário: Em boa parte das investigações, você começa grande e, eventualmente, vai estreitando o foco até que você tenha uma história poderosa - um estudo de caso hermético que ajude a expor o que está por trás de uma questão mais ampla. Mas, em boas histórias como a do acobertamento da Igreja Católica, você começa a descascar a cebola, mas ela fica cada vez maior e maior.

Fontes inovadoras: Em um projeto grande, normalmente há um par de fontes que ajudam a avançar o caso fornecendo documentos e dados chave para ajudar a enxergar todo o panorama do que está sendo investigado.,. Esses “momentos Eureka!” são, talvez, as partes mais emocionantes da investigação - quando você percebe que seu palpite e dados iniciais estavam corretos. É só quando o time Spotlight entrevista um especialista em saúde mental que estudou o problema durante anos que eles percebem o escopo completo da história - um problema que se estende a milhares de sacerdotes e a um número ainda maior de vítimas por todo o mundo.

Rastro de responsabilidade: Marty Baron, o novo editor do Boston Globe, herdou as qualidades dos grandes jornalistas investigativos dos Estados Unidos. Baron é quem diz aos seus repórteres que só provar casos individuais de abuso sexual não é suficiente. O que ele quer saber é se a pedofilia é um problema sistemático de dentro da Igreja, se existe o acobertamento desses casos e quem são os responsáveis. E são essas as perguntas clássicas do jornalismo investigativo. Como a famosa pergunta de um senador dos Estados Unidos, durante o escândalo Watergate: ‘ O que o Presidente sabia e quando ele soube disso?”

Dados e Documentos: Repare na busca metódica do time Spotlight por artigos de jornais, documentos judiciais e diretórios anuais das arquidioceses, que listavam padres transferidos ou ausentes por razões não justificadas. Enquanto o time recolhia dados, o que os repórteres faziam? Eles construíram um banco de dados. Jornalistas: aprendam a usar planilhas!

A luta dentro da relação: Frequentemente, uma das lutas mais difíceis vai acontecer dentro de sua própria redação, para conseguir o tempo e os recursos necessários para produzir uma história tão importante. Os editores anteriores do Boston Globe enterraram histórias sobre pedofilia na Igreja Católica e não acreditavam que o assunto poderia realmente ser grande. Como os repórteres chegaram tão longe? Primeiro, graças à liderança do editor Baron, que sabe reconhecer uma grande história quando a vê. Igualmente importante: a equipe que foi conseguindo o necessário para ganhar o direito de continuar investigando.

Trabalho em equipe: O grupo Spotlight trabalhou como uma equipe, algo muito importante ao investigar temas complexos. Repórteres trazem diferentes habilidades - elaboração de relatórios, pesquisa, entrevistas, escrita - e você precisa utilizar toda a diversidade desse grupo quando se confrontar com assuntos complexos e instituições poderosas como a Igreja Católica de Boston.

Jornalismo de indignação: Um dos momentos mais emocionantes do filme acontece quando o repórter Mike Rezendes, brilhantemente interpretado por Mark Ruffalo, vê a história sendo adiada e explode de raiva. Tais emoções são difíceis de lidar na redação, mas esse tipo de indignação é o material dos grandes investigadores. Há uma bússola moral no jornalismo investigativo, e é por isso que o campo atrai homens e mulheres que querem corrigir erros, ajudar os pobres e esquecidos e parar com abusos de poder. Isso é o jornalismo em sua melhor forma. 


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